Os acampamentos no Porto, a invasão da RUC em Coimbra, a actuação do Governo e de figuras do PSD revelam um perigoso alinhamento com a linguagem e as práticas da extrema-direita.
Nos últimos dias – direi mesmo, nos últimos tempos -, temos vindo a assistir a demasiados actos que nos recordam os maus tempos da “velha senhora”. Os tempos que correm são perigosos e pouco auspiciosos, um pouco por todo o mundo. Portugal, sempre na cauda em tanta coisa, não deixa, infelizmente, de estar na linha da frente noutras. Com demasiada frequência.
Agora, na sequência das falhas das políticas governamentais no domínio da habitação, há pessoas que têm acampado no Porto, em defesa de um direito cada vez mais difícil de concretizar. Logo o alcaide-mor, Pedro Duarte, figura do PSD e, por sinal, vice-presidente do partido, veio avisar que seria “absolutamente implacável” com os manifestantes acampados na praça.
Esta madrugada, depois de algumas cobardias por parte das autoridades, a polícia acabou por carregar sobre os manifestantes, numa intervenção que, ao que se sabe, terá sido abusiva perante uma manifestação legítima e dentro dos limites legais. O alcaide-mor avisara. Por isso, também deveríamos estar avisados. Mas não estávamos. Nem sequer um causídico que se encontrava no local, em defesa dos manifestantes, escapou à violência policial.
O alcaide-mor do Porto, com uns tiquezitos autoritários, apressou-se a legitimar a intervenção policial. Faz lembrar o seu confrade de Lisboa, Carlos Moedas, igualmente vice-presidente do partido, um tiranetezito de modos e ares de abade, a quem nem o aspecto de pequeno tirano consegue retirar o ridículo. Esta gente pertence a um partido democrático chamado PSD.
Entretanto, o primeiro-ministro, a dar cobertura a todos eles, veio lembrar que os manifestantes não podem agir “egoisticamente”. Assim mesmo! É um portento este vosso primeiro-ministro português de quem tenho imensa vergonha. Exigir habitação, pelos vistos, é egoísmo. Falhar na garantia de um direito fundamental e depois censurar quem reclama esse direito já é uma virtude governativa.
Sabemos ao encontro de quem esta gente governa. A sua actuação é cada vez mais alinhada com os interesses e as conveniências da extrema-direita, para gáudio desta e sossego dos mais privilegiados. Até o ministro da Administração Interna, Luís Neves, que noutras circunstâncias era capaz de uma palavra mais assertiva e moderada, reconhecendo a legitimidade da manifestação, se vê agora enredado na teia das conveniências políticas. E, para agradar aos pares, acaba por dar respaldo à actuação policial.
Não tenhamos dúvidas: este PSD e este Governo vêm protagonizando uma governação que se aproxima, em muitos aspectos, da de Passos Coelho. Uma governação reaccionária, como já tive oportunidade de assinalar. E a história repete-se. Cumpre-se o que se anunciava.
Como não cumpre o seu dever de governar em prol do povo – e não apenas no caso da habitação -, este Governo cumpre-se, isso sim, na protecção dos interesses dos mais privilegiados. Renega, na prática, tudo aquilo que tanto gosta de apregoar: o humanismo, a governação centrada nas pessoas e toda a treta do costume, o palavreado de circunstância que serve para abrilhantar discursos, mas não resiste ao confronto com a realidade.
O alcaide-mor do Porto, que há cerca de um ano debitou um argumento verdadeiramente fantasmagórico para se fazer eleger, vêmo-lo agora empenhado em confirmar a vocação de tiranete. Tal como o seu confrade, o abade triste lisboeta. Um dó estas personagens! Um dó este PSD! Um dó este Governo! E uma tristeza ainda maior perante a infelicidade de um povo destratado por quem devia servi-lo.
E Luís Montenegro, distante dos acontecimentos, lá debitou umas palavras a caucionar o sucedido, mesmo sem estar devidamente elucidado. A prudência, quando se trata de avaliar a actuação das autoridades, tem um sentido muito particular: exige-se aos cidadãos, mas dispensa-se a quem governa.
Do partido fascista, já pouco surpreende. Como seria de esperar, veio dizer que a polícia devia ter carregado ainda mais, acompanhando a habitual dose de alarvidades. Há poucos dias, as suas deputadas acompanhadas por um grupo de militantes da seita, invadiram abusiva e ostensivamente a Rádio Universidade de Coimbra – a RUC -, interrompendo a emissão. Aí já estão cheios de razão.
Nunca entendi, nem hei-de entender, estes paralelos de conveniência. Para esta gente, a liberdade é um direito absoluto quando serve os seus propósitos e um incómodo a eliminar quando pertence aos outros. Estes paralelepípedos políticos fazem lembrar aquelas bestas paralelepípedas que a memória de outros tempos aconselharia a não deixar regressar.
Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).
