O doutor Vasconcelos dizia-me que não havia motivos para que eu não me alimentasse durante a desintoxicação, mesmo com o punhado de medicamentos que ele me receitava. E ao dizer isso, recomendava-me também que eu bebesse muita água, pois quanta mais água eu bebesse mais limpava o meu organismo da heroína.
– Bebe muita água. Lembraste o que disse o doutor? Quanto mais beberes mais depressa sais deste sofrimento.
Dizia-me a minha princesa, trocando constantemente a caneca de água que deixava na mesinha de cabeceira, esperançada de que eu a bebesse se estivesse fresca.
Mas mesmo que o doutor Vasconcelos dissesse tudo isso, eu passava dias sem conseguir meter comida à boca porque só em pensar nela sentia-me enfastiado de uma maneira que me apetecia vomitar mesmo sem ter nada no estômago. E quanto à água, era precisamente a mesma coisa. Bebia apenas o mínimo para tomar os medicamentos para a ressaca.
De cada vez que me submetia a essas desintoxicações ficava debilitadíssimo durante muito tempo.
Numa dessas tentativas de desintoxicação passei por um episódio bastante caricato. Há pelo menos uma semana que não conseguia meter nada à boca que fosse comida, e água só tinha bebido o mínimo dos mínimos. Foi chamada uma ambulância para me levar para o hospital de S. João no Porto, e pelo caminho, eu sentia-me tão agoniado, tão fraco, que cheguei a pensar que não chegaria com vida ao hospital. Nas urgências do hospital de S. João no Porto, depois de me terem feito esperar umas largas horas, esquecido num dos corredores, deitado numa maca, quando finalmente o médico, com a minha ficha na mão, me veio ver, chegou-se perto do meu ouvido, e num tom que apesar de tudo era de compreensão, disse-me.
– Pois claro, sabes como é…
E ao dizer isto, encolheu os ombros, e com a boca perto do meu ouvido, disse-me aquilo que lhe parecia ser inevitável dizer.
– Isso é a falta daquela coisa. Sabes isso, não é?
Claro que eu sabia. Por isso fiz-lhe sinal com o dedo para que voltasse a chegar-se perto de mim, e disse-lhe.
– Claro que sei senhor doutor. Já agora, num desses armários dos medicamentos, acha que haverá algum que tenha umas gramas daquela coisa?
Ele ficou por uns escassos segundos como que imobilizado, franziu a testa, refletiu, e acabou por dizer.
– Pelo menos o sentido de humor não perdeste. Vou-te por a soro por umas horas.
O que essas tentativas de desintoxicação tinham em comum, era duas coisas. A primeira, era essa falta de apetite, essa agonia enfastiante em relação à comida, e a segunda, o meu estado depressivo. Passava dias metido no quarto, com tudo fechado. Janelas, cortinas, porta, televisão desligada, enfim, fazia tudo para que o quarto ficasse escuro, mesmo de dia. Às vezes pressentia uma presença mesmo à cabeceira da cama. Alguém que entrava no quarto muito sorrateiramente, chegando-se muito devagarinho ao pé de mim, e ali ficava sem fazer o mínimo de barulho, à espera que fosse eu a dizer alguma coisa. Quando eu me apercebia disso, porque às vezes levava-me algum tempo, devido aos medicamentos para a ressaca que me faziam dormir, pressentindo a sua presença ali no escuro, de voz trémula, não só de fraqueza, mas também de emoção, de arrependimento, eu dizia-lhe.
– És tu Miguel? Chega aqui ao pé de mim.
E ele, nos seus pezinhos de quatro anos de idade, chegava-se perto da minha cabeceira, e só então é que falava comigo para dar conta da sua presença.
– Estás bem pai?
E eu pegava-lhe na mão, gentilmente puxava-o para mim, abraçava-o, e às vezes tinha de fazer uma pausa um pouco prolongada porque se me embargava a voz com emoção e eu não queria que ele percebesse que eu tinha os olhos lavados em lágrimas.
– Queres que eu te vá buscar um copo de água pai?
Dizia-me ele sussurrando para não me incomodar.
– Não, só quero que fiques aqui ao pé de mim um bocado.
E ali ficávamos abraçados, outras vezes eu metia-o na cama ao pé de mim, e quando conseguia abafar finalmente toda a emoção, toda a minha fragilidade pela falta do pó que me fazia querer conquistar o mundo, ficávamos ali no escuro a falar, a contar histórias. E nessa altura, eu por uns momentos largos parecia ficar um pouco aliviado do meu sofrimento. Outras vezes, ali fechado no quarto escuro, mesmo de dia, quando ouvia as vozes das pessoas que passavam na rua, simplesmente conversando umas com as outras, quando ouvia o motor dos carros que passavam na estrada, e imaginava os condutores que neles iam, talvez sozinhos, talvez acompanhados, talvez com as esposas, ou os maridos, ou os filhos, ou todos juntos, pensava comigo mesmo, que estas pessoas não imaginavam o quanto eram felizes por serem normais, por não dependerem de um pó castanho, como eu dependia. E nessas alturas, sentia-me realmente perdido, depressivo, às vezes com medo do meu futuro.
Por isso, uma noite, depois de mais uma dessas desintoxicações das quais eu já me tornava um veterano, quando a minha princesa entrou no quarto, eu disse-lhe.
– Vou fazer mais uma tentativa de desintoxicação. Sim, aceito ir para a Remar em Inglaterra.
Estávamos no ano de 1997 ou talvez 1998.
António Magalhães
(Excerto do capítulo 9 de “Esta Pedra no Meu Sapato”)
