Marta Lapa: “O lugar da dança portuguesa seria outro” se Mónica Lapa estivesse viva
A encenadora Marta Lapa revisita a vida e o legado da irmã, a bailarina e coreógrafa Mónica Lapa, num espetáculo que se estreia na quarta-feira, em Lisboa, para assinalar 25 anos da morte da criadora.
Intitulada “E se a Mónica”, a criação da Escola de Mulheres, com texto original de Miguel Castro Caldas, tem por objetivo devolver ao presente uma figura determinante da dança contemporânea portuguesa, e estreia-se na Escola de Mulheres, partindo de uma pergunta que abre caminho à memória, à ficção e à imaginação de futuros que ficaram por concretizar.
Mónica Lapa morreu em 03 de agosto de 2001, com apenas 35 anos.
Bailarina, coreógrafa e produtora, foi uma das impulsionadoras da nova dança portuguesa nos anos 1990, fundou, com Albino Moura, o festival Danças na Cidade (1993-2002), atual festival Alkantara, e promoveu projetos de intercâmbio entre artistas e comunidades de diferentes geografias.
“Começámos a perceber que era mais do que importante, fundamental, relembrá-la e convocá-la para os dias de hoje, falar dela”, afirmou em entrevista à agência Lusa Marta Lapa, que sentiu essa necessidade depois de verificar que várias gerações desconhecem a importância da irmã, e a marca que deixou nas artes performativas.
A conclusão tornou-se particularmente evidente quando percebeu que parte do público do Alkantara não sabia quem tinha sido Mónica Lapa, apesar de o nome da fundadora constar no sítio oficial do festival. Foi nesse momento que a encenadora sentiu a urgência de transformar a sua memória numa criação artística.
“Há de facto um grande trabalho a fazer pela nossa memória recente, que é um lugar estranho. Não se fala dos anos 80, não se fala dos anos 90, que foram tão importantes para as artes performativas, para a nova dança portuguesa e para o teatro”, observou Marta Lapa, em entrevista à agência Lusa.
Na sua leitura, os criadores desse período “enfrentavam dificuldades em conseguir condições de trabalho e, por vezes, acabavam por circular mais no estrangeiro do que em Portugal”. Passados 25 anos, reconhece que houve uma evolução nas condições de criação, mas considera que o percurso da dança portuguesa teria sido diferente se a irmã tivesse continuado a trabalhar.
“Tenho a certeza que se a Mónica ainda estivesse viva que o lugar da dança portuguesa seria outro. Disso eu não tenho qualquer dúvida”, afirma a também coreógrafa, bailarina e atriz, que dirige a companhia de teatro Escola de Mulheres com o encenador e produtor Ruy Malheiro.
Mais do que recuperar uma biografia, “E se a Mónica” procura convocar a energia de uma artista que, segundo a irmã, tinha uma capacidade particular para identificar lacunas e mobilizar pessoas em torno de novas ideias.
O seu olhar visionário conjugava-se com “uma atenção constante aos outros e às possibilidades de colaboração”, observou a filha da fundadora da companhia Escola de Mulheres, a atriz Fernanda Lapa (1943-2020).
“Era alguém que identificava algo que não existia e que fazia falta, e punha logo mãos à obra”, recorda Marta Lapa, lembrando que a irmã começou a carreira na dança aos 16 anos como ‘sapateadora’, vindo mais tarde a afirmar-se na dança contemporânea. I
Durante vários anos Mónica Lapa fez parte do percurso criativo de Clara Andermatt, com quem desenvolveu também trabalho de produção, e criou com o bailarino e coreógrafo Francisco Camacho o dueto “Bimarginário”, a que se seguiu o solo “Despe-te e Nada”.
Depois de um intervalo na criação coreográfica, regressou com “Miss Liberty”, apresentada em 1999, que viria a ser a sua última peça.
No festival Danças na Cidade, projeto que dirigiu posteriormente com Mark Deputter, promoveu também o intercâmbio artístico através de “Dançar o que é Nosso”, desenvolvido durante quatro anos após um primeiro contacto com a comunidade de dança cabo-verdiana, em 1994.
A dimensão desse percurso, feito de encontros com artistas de diferentes países e de projetos que procuravam aproximar comunidades, ajuda a explicar a vontade de Marta Lapa de não deixar a memória da irmã circunscrita ao círculo de quem a conheceu.
O novo espetáculo reúne em palco Francisco Camacho, criador da geração de Mónica Lapa e seu colaborador, e Mélanie Ferreira, bailarina de uma geração mais jovem, num encontro entre diferentes experiências e formas de olhar para o legado da artista.
A escolha dos intérpretes foi importante para o processo de criação, que assentou na partilha de memórias e na escuta, segundo Marta Lapa.
Também a opção por Miguel Castro Caldas para escrever o texto original foi deliberada. O dramaturgo não conheceu Mónica Lapa, uma distância que a encenadora quis preservar, evitando que a peça se convertesse numa reconstituição histórica ou numa narrativa biográfica fechada.
“Não é um espetáculo que pretenda contar a história da Mónica. Parte da biografia da Mónica, mas não explica nada”, sublinhou Marta Lapa à Lusa, apontando ainda que deixa ao público a possibilidade de procurar mais informação sobre a artista depois de assistir à criação.
“Se o público sair de lá com vontade de ir procurá-la, de saber mais sobre ela, a proposta está ganha”, acrescenta a encenadora que tem mantido viva na companhia a missão feminista, inclusiva e de resistência.
O processo não se limitou à recolha de testemunhos. A partir da biografia, das memórias de quem se cruzou com Mónica e das possibilidades abertas pela ficção, a equipa procurou imaginar o que poderia ter acontecido se a artista tivesse continuado a criar: que obras teria feito, que causas teria abraçado e que caminhos teria aberto, apontou.
A interrogação inerente ao título do espetáculo mantém-se, por isso, deliberadamente aberta: “O título é a premissa do projeto e da ideia, mas é mais do que isso”, explicou.
A pergunta não pretende alimentar uma dimensão mística, mas antes permitir que a artista seja projetada no futuro, em vez de ficar confinada ao passado. “É libertador. É projetá-la no futuro. É querer mantê-la no presente”, diz.
Para Marta Lapa, a criação constituiu também uma forma de reencontrar as memórias da irmã através do trabalho artístico, num processo que descreve como “feliz e transformador”. Os 25 anos decorridos desde a morte permitiram-lhe regressar a esse passado sem fazer do luto o centro da peça.
“Já passaram 25 anos, o luto já foi feito e há quase, no meu caso, uma sensação de felicidade de me permitir mergulhar nas memórias com um ímpeto criativo”, afirmou a encenadora.
A homenagem não exclui a dor da perda, mas recusa-se a ficar presa a ela: “Não é um memorial, é um espetáculo bastante solar e divertido, porque foi para isso que eu decidi fazer esse espetáculo, para celebrar a Mónica, chorá-la também, evidentemente. O espetáculo não foge desses momentos, mas não é esse o seu material criativo.”
Para a artista “é importante ter o cuidado e a pertinência de perceber que temos de manter os nossos mortos de alguma forma na nossa memória coletiva”, defende.
Produzido pela Escola de Mulheres, companhia fundada em Lisboa em 1995, “E se a Mónica” cruza teatro e dança numa criação que procura ligar a memória de uma figura central da dança contemporânea portuguesa às gerações que hoje constroem o seu futuro.
“E se a Mónica” fica em cena na Sala de Teatro do Clube Estefânia, em Lisboa, de 14 de outubro a 01 de novembro, com interpretação e cocriação de Francisco Camacho e Mélanie Ferreira, música original de Carlos Bica e Gonçalo Neto, figurinos de Vítor Alves da Silva e desenho de luz de Paulo Santos.