Os preços das casas e das rendas continuam a afastar os portugueses, sobretudo os mais jovens, mas temos políticos que lhes recomendam sacrifícios, como se a falta de habitação fosse uma questão de vontade e não também o resultado de políticas e opções governativas.
Volta e meia, esta gente reaccionária e pouco escrupulosa vem a terreiro com declarações que provocam indignação. Desta vez, foi o senhor Benjamim Pereira, presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) e antigo autarca do PSD, a quem ocorreu dizer que os jovens de hoje não estão preparados para fazer os sacrifícios que os pais e os avós fizeram.
Ora, lembro-me bem do trabalho infantil que, ainda nos anos 80 e 90, marcava a vida de tantas crianças e jovens do Norte, e aqui pela nossa região. Gente que começou a trabalhar demasiado cedo e ficou privada de estudar e de ter oportunidades que hoje se consideram elementares. Muitos desses portugueses fizeram, de facto, sacrifícios. Mas não foi por isso que se tornaram privilegiados. Pelo contrário. Para muitos, esses sacrifícios significaram uma vida inteira de limitações.
Depois, perante a contestação, o secretário-geral do PSD, Hugo Soares, veio fazer descaso das declarações de Benjamim Pereira, dizendo que não via “um caso”, depois de este explicar que se tratava de um “apelo” aos jovens. Um apelo a quê, exactamente?! A aceitarem com resignação as dificuldades que lhes são impostas? A conformarem-se com a impossibilidade de comprar casa ou de pagar uma renda compatível com os seus rendimentos? Ou a fazerem as malas e a procurarem lá fora as oportunidades que não encontram no seu país? Já conhecemos esta música. No tempo do senhor Passos Coelho, também este falava em sacrifícios e em oportunidades para quem estivesse disposto a procurá-las além-fronteiras.
Viva a Pátria, o patriotismo e tudo aquilo que dizem querer para o nosso país! Será esta a tão apregoada mentalidade Ronaldo? Exigir aos jovens que se sacrifiquem, que se superem e que encontrem soluções individuais para problemas que exigem respostas colectivas? É curioso como o patriotismo serve para pedir aos portugueses que fiquem, enquanto as condições de vida os empurram para a emigração!
O senhor ministro da Habitação, Pinto Luz, começou por classificar as declarações de “infelizes e graves”, mas acabou por acolher a explicação apresentada por Benjamim Pereira. Uma evolução conveniente. A política é fértil em explicações, justificações e recuos cuidadosamente embrulhados em palavras. Nos últimos tempos, temos sido brindados com um vocabulário profícuo: motivos “egoísticos”, a promessa de ser “absolutamente implacável” e, agora, os sacrifícios que os portugueses devem estar dispostos a fazer. A classe política anda inspirada. Pena é que tanta eloquência nem sempre se traduza em soluções para a vida de quem trabalha e vive com dificuldades.
Portugal enfrenta uma crise habitacional profunda, com os preços das casas e das rendas entre os mais elevados da Europa. E, enquanto se discute a suposta falta de preparação dos jovens para os sacrifícios, continua por resolver a questão essencial: como podem construir uma vida autónoma, constituir família e ter um futuro no seu próprio país quando a habitação se tornou inacessível para tantos?
Entretanto, o debate público perde-se nestas declarações, nas explicações que se lhes seguem e nas polémicas que ocupam o espaço mediático. O essencial fica para trás. E é precisamente essa a parte mais conveniente de tudo isto. Enquanto discutimos se os jovens estão ou não preparados para sofrer, deixamos de discutir, com a atenção necessária, as razões pelas quais lhes estão a exigir tanto e a oferecer tão pouco.
Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)
