O artilheiro português Cristiano Ronaldo colocou esta quinta-feira, 5 de novembro, um ponto final na sua carreira internacional, ao confirmar, através de um extenso comunicado, o adeus à seleção nacional.
Passaram exatamente 23 anos, dois meses e 16 dias (ou 8.478 dias) desde a estreia do então jovem Cristiano Ronaldo pela Equipa das Quinas. Estávamos em 20 de agosto de 2003, num jogo particular contra o Cazaquistão, no Estádio Municipal de Chaves, quando o extremo madeirense entrou ao intervalo para substituir um nome de peso, Rui Costa. Portugal acabara por vencer esse encontro com um tento Simão Sabrosa aos 65 minutos.
Hoje, depois de ter erguido um Campeonato da Europa em 2016 e uma Liga das Nações em 2019, o eterno capitão decidiu encerrar este capítulo na sua carreira desportiva, focando-se exclusivamente no clube que representa, o Al Nassr, da Arábia Saudita.
O adeus de Cristiano Ronaldo à seleção, recorde-se, foi “antecipado” pelo próprio atleta na sequência de um desentendimento com o novo timoneiro, Jorge Jesus, em setembro.
Sentindo que o selecionador lhe tinha “faltado à palavra” em duas ocasiões, Ronaldo recusou treinar no dia 30 de setembro e, após uma reunião de urgência com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, abandonou o estágio da seleção, falhando a viagem para o jogo seguinte contra a Dinamarca.
O camisola 7 luso despede-se assim de uma trajetória internacional, marcada por 234 jogos e 146 golos.
Leia, em baixo, a mensagem de despedida do avançado que revolucionou a seleção portuguesa.
“Aos portugueses, chegou o dia de devolver a camisola 7 da seleção de todos nós. Nunca a senti como exclusivamente minha. Mas durante 23 anos tive o privilégio e a responsabilidade de a vestir, de a defender e de a levar comigo para estádios no mundo inteiro.
Hoje chegou o momento de entregar ao futuro. Não foi uma decisão fácil, porque há decisões que não se tomam apenas com a cabeça. Tomam-se também com o coração.
Termino uma caminhada que começou em agosto de 2003 e mudou a minha vida para sempre. Quando olho para trás e penso em tudo o que vivi na seleção, não vejo apenas jogos, golos, recordes ou troféus. Vejo pessoas. Vejo emigrantes que durante 90 minutos sentiam Portugal um pouco mais perto. Vejo milhões de portugueses que nunca conheci pessoalmente, mas que fizeram parte da minha vida. Porque no fim de tudo, o futebol é muito maior do que um jogo. O futebol são as pessoas.
Durante toda a minha carreira na seleção, procurei superar os meus limites. Quis ganhar, quis ser o melhor, quis fazer história. Sempre fui exigente comigo próprio. Sempre quis mais, sempre acreditei que podíamos chegar mais longe. E dei tudo o que tinha por esta camisola.
Houve tardes e noites perfeitas, houve vitórias que nunca esquecerei, houve derrotas que ainda hoje me custa recordar. Também falhei, também sofri, também houve momentos em que não fui capaz de dar aos portugueses aquilo que tanto desejavam. Mas nunca desisti. E acima de tudo, nunca deixei de sentir orgulho por representar Portugal.
Ao longo destes anos aprendi coisas muito simples. Os golos passam, as taças ficam nos museus, os recordes acabam por ser batidos. Mas há algo que o tempo nunca consegue apagar: o lugar que ocupamos no coração das pessoas. Se alguma vez vos fiz feliz, se alguma vez um golo meu vos fez abraçar alguém, esquecer um momento difícil ou ter orgulho no nosso país, então tudo valeu a pena. Porque ser português também é isso. Sofremos juntos, levantamo-nos juntos, acreditamos outra vez.
Portugal precisará sempre de jovens que sonham, de jogadores que nunca desistem, de novas gerações que acreditam que é possível chegar onde ninguém chegou. Porque um país que continua a criar novos heróis é um país que nunca deixa de acreditar em si próprio.
Aos meus companheiros de seleção, quero deixar uma palavra especial. Obrigado por cada corrida, por cada abraço, por cada discussão, por cada silêncio antes de entrar em campo. Por cada vitória que celebrámos juntos e por cada derrota que nos tornou mais fortes. Tive o privilégio de ser vosso capitão, mas nenhum capitão caminha sozinho. E vocês fazem parte da minha história.
A todos os treinadores, dirigentes, médicos, fisioterapeutas, roupeiros, funcionários e a tantas pessoas que trabalharam comigo ao longo destes anos, o meu obrigado. Muitos de vocês nunca apareceram nas fotografias, mas sem vocês nenhuma dessas fotografias teria sido possível.
À minha família, obrigado por terem dividido comigo este sonho. Obrigado por compreenderem as ausências, os sacrifícios e os momentos em que a seleção teve de ocupar um espaço que também vos pertencia. Se cheguei tão longe, foi porque estivemos sempre de mão dada.
E aos portugueses, a todos os portugueses espalhados pelo mundo, quero dizer-vos uma última coisa. Há uma imagem que levarei sempre comigo: o momento em que começa o hino nacional. Olho à minha volta, vejo os meus companheiros, vejo as bancadas, vejo crianças, mães, pais e avós, vejo portugueses que vieram de tão longe apenas para estar ali. E durante aqueles minutos deixamos de ser diferentes. Não existem clubes, não existem cores, não existem classes, não existem profissões, não existem opiniões. Existe apenas uma paixão: Portugal.
Esse sentimento levarei comigo para o resto da vida. Hoje termina a minha caminhada dentro de campo com a seleção nacional. Saio de cabeça levantada, com orgulho no caminho que fiz e com a consciência de que dei tudo o que tinha por Portugal. Mas nunca deixarei de ser um de vocês. Continuarei a sofrer, a vibrar e a celebrar cada vitória de Portugal com o coração.
Passei a minha vida a trabalhar para ser o melhor jogador do mundo. Hoje percebo que a maior vitória foi ter merecido representar o melhor país do mundo.
Obrigado por estes 23 anos. Obrigado por terem acreditado em mim. Obrigado por me terem permitido viver um sonho que começou quando era apenas um menino, na Madeira, a correr atrás de uma bola.
A camisola 7 fica, o orgulho de a ter vestido será meu para sempre. Portugal estará sempre em mim.
Até sempre. Cristiano Ronaldo”.