Comecemos por concordar que habitação condigna é um direito. Consagrado, aliás, na Constituição da República Portuguesa.
E que em Portugal há (ou melhor, parece indubitavelmente haver) um problema relacionado com a habitação. Vem de trás, de há décadas — por isso seria pertinente chamar a atenção para ele.
Mas o clima de insurreição que se está a verificar pouco tem a ver com chamadas de atenção para problemas de fundo. Muito menos agora que o governo propõe medidas para a sua atenuação (já não digo para a sua resolução, que essa é uma questão de longo prazo).
Porquê precisamente agora, se o Partido Socialista e os seus aliados nunca chegaram a resolvê-lo ou sequer a mitigá-lo?
É um facto inquestionável que, desde o 25 de Abril, a esquerda nunca se resignou a ser arredada do poder. Parece considerar que só ela tem o direito (e até o imperativo moral) de governar Portugal. Estando no governo forças cromaticamente diversas da faixa entre o rosa pálido e o vermelho escarlate, a esquerda empreende uma ação decidida de minagem. É neste contexto que deve entender-se o estímulo a estas manifestações sob a forma de «acampadas», que visam provocar a polícia, desafiando as suas ordens de desmobilização.
Já alguém me assinalou que os partidos atualmente no poder também promoveram protestos contra a crise da habitação quando eram oposição ao Partido Socialista. Será verdade, mas a dimensão relativamente comedida dessas manifestações não extravasava os limites do que se pode considerar «chamada de atenção para um problema».
Pensará alguém, seriamente, que as acampadas permitirão ao governo ceder casa a todos os que dela precisam?
O problema vem de há muito, muito tempo, e até se tem agravado pela imigração, que uma certa esquerda tanto parece prezar. Porém, se considerarmos esquerda o leque de partidos entre o PS e a «geringonça», é inegável que ela nada fez para o resolver.
Neste momento procede-se como se se pensasse que, com tantas acampadas a favor do «direito à habitação», o governo acabará por ceder, reconhecerá esse direito e começará a dar casa a quem dela necessite. Mas a crise da habitação jamais se resolveria no dia seguinte a uma hipotética cedência a acampadas. Nunca será de mais repetir que é questão de longo prazo.
Os promotores das manifestações sabem muito bem disto. Não são estúpidos nem ingénuos. Têm é uma outra agenda: provocar a polícia, minar a opinião pública, criar um clima de insurreição.
Nas primeiras manifestações do Porto ficou filmado um estrangeiro a estimular os presentes, alto e bom som, a revoltarem-se e a atirarem tijolos à casa do primeiro-ministro. E há dias, na zona lisboeta do Rossio-Intendente, outros estrangeiros empunhavam um cartaz onde se via um boneco pendurado da forca, com a legenda «Snr 1.º ministro, game over!»
A polícia manda cessar as acampadas a partir da meia noite. Provocadoramente, ninguém arreda pé. Num dos incidentes mais recentes, a polícia começou a atuar três horas (três!) depois dos avisos, ia já adiantada a madrugada. Então, uma militante proclamou ao microfone de uma estação de televisão: «O fascismo voltou! O fascismo voltou!»
Em acentuada queda de popularidade, as correntes da esquerda mais radical no panorama político português identificaram a causa da habitação como a coramina capaz de as revitalizar.
Quem são as figuras públicas que dão a cara para alimentar esta fogueira populista a pretexto do nobre e justo direito à habitação? Isabel Moreira (PS), Fabian Figueiredo e Catarina Martins (BE), António Filipe e Paula Santos (PCP), Isabel Mendes Lopes, Jorge Pinto e o causídico Ricardo Sá Fernandes (Livre)… Este último é irmão de José Sá Fernandes, ex-vereador da Câmara Municipal de Lisboa pelo Bloco de Esquerda, cargo durante o qual zelosamente se empenhava em boicotar e fazer embargar tudo quanto fosse iniciativa do presidente Santana Lopes.
E não esqueçamos os keffiyehs (lenços de padrão axadrezado, típicos do Médio Oriente e do Norte de África) que se tornaram ícones do Free Palestine (um movimento intimamente associado à falta de habitação em Portugal, como sabemos).
Digam-me que nisto não há agenda disfarçada…
Jorge Madeira Mendes
