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Torga em mim

Miguel Torga é o nome literário do médico Adolfo Correia da Rocha, nascido a 12 de Agosto de 1907 em São Martinho de Anta, Sabrosa. Vila Real.

– Assim, tal e qual. Passadas quatro décadas ainda oiço integralmente o professor de Português no ciclo preparatório a fazer aquela menção. Sinto estas palavras gravadas no cinzento da minha massa. Vejo ainda as letras da ficha da aula que o professor distribuiu. De igual modo vejo os meus apontamentos no caderno.

Depois arranjei cento e trinta escudos (0, 65€) e da livraria do senhor Melo, trouxe o livro “Bichos”, que com uma faca acabei por separar as folhas umas das outras, exactamente como eram feitos todos os livros do Torga, política que adoptara para que ficassem mais baratos. Por mor disso também não tinham ilustrações e as capas eram cartolina branca.

Nessa altura começara eu a escrevinhar umas coisas minhas. Algo a que chamava artigos ao que pretendia fossem poesia. E, não sendo o conhecido diário que os adolescentes, em especial as raparigas, ao tempo tinham, eu escrevia muito, muito todos os dias.

Vim a saber que Miguel Torga escrevia um diário, na procura de saber mais sobre ele.

Fui criando a minha biblioteca ainda hoje humilde e pobre, privilegiando Miguel Torga.

Dou conta de outras semelhanças. – Aqui arrepio-me de vergonha humilde. Claro que não tinham qualidade, absolutamente incomparável. Continuo a arrepiar-me cada vez mais intensamente. Quanto mais tento explicar que era apenas o procedimento – do Torga – além do seu diário e pequenos textos telúricos que Torga escrevia e eu simultaneamente me revia e gostava.

Em 13 de Julho de 1989 – na minha máquina de escrever, Imperial Express 12, que pracejava as noites de sono da minha mãe, que me custara quarenta e seis contos (230 €) quando comecei a escrever para os jornais – redigi e dirigi uma missiva ao Dr. Adolfo Correia da Rocha, no Largo da Portagem, em Coimbra, onde lhe manifestava o meu agrado por ele vencer a primeira edição do Prémio Camões. Mas era um pedido capcioso para me permitir que o visitasse.

Torga estava com oitenta e dois anos e começava a ficar doente e eu ia submeter-me a mais uma intervenção cirúrgica na área da ortopedia – que pese a complicação, não me atemorizava por aí além, mas a gente pensa em tudo. Creio que o leitor entende: um de nós poderia faltar à chamada do meu enorme desejo que representava conhecer pessoalmente o escritor.

No dia 16 de Agosto de 1989, no meio de dezenas de correspondência e publicações que recebia diariamente, uma ressalta-se: um sobrescrito do Torga! Sim. Era. Conhecia a sua aversão ao público, o que significaria nem ler a minha missiva, Adolfo Rocha responde-me. Diz-me qual é o horário em que o poderia encontrar no Largo da Portagem – no edifício propriedade do Montepio.

Fui lá com um amigo – o Fernando. Ambos armados ao pingarelho com a religiosidade de ir visitar Torga, a quem levamos uns livros sobre Felgueiras incluindo a Primeira Colectânea de Poetas Felgueirenses, que tinha trabalhos meus.

Constatava na primeira pessoa aquilo que só ouvira ou lera. O enorme mau feitio mais algumas particularidades. Na Casa Novais, uma loja tradicional de vestuário, ao lado da porta do gabinete de Torga, diziam-nos que não estava mas que ali eram uma espécie de relações públicas de Torga. Recebiam – diziam-nos – o correio do escritor, davam informações sobre ele e até nos disseram que um dia chegou uma missiva dum país longínquo dirigida simplesmente a: Miguel Torga, Portugal.

(O taxista que nos levara lá havia dito que não sabia quem era nem onde era e que nunca ouvira falar de tal criatura. Pensei que fosse troça, mas era mesmo ignorância).

Na Casa Novais continuavam a contar-nos que em dezenas de anos de vizinhança, Torga nunca lhes oferecera um dos seus livros nem um autógrafo! – Queriam-no! Tinham que comprar. Torga dizia que a partir da publicação do livro deixava de ser seu. – Torga viria a dizer-me expressamente que não entendia porque os seus leitores desejavam contactá-lo.

Voltei outro dia com outro amigo – o Sérgio. Temi o homem. Os olhos do homem eram verdadeiramente terrificantes. Em cima da mesa a velha Royal no meio de caixas emaranhadas, mal deixavam ver a máquina.

À falta de espaço manda-me sentar num banco mal amanhado.

Quando eu falava os seus olhos fortemente aclivados fixavam-se em mim, como se me entrassem pele da cara adentro. Quando falava ele, virava ligeiramente a cara num ponto imaginário e a voz telúrica e bem acentuada além da prenuncia de transmontano.

Resultado: o homem meteu-me medo. Sem eufemismo. Era realmente telúrico. Mas fulminante quer pelos olhos escuros brilhantes, quer pela voz pesada. Saí de lá a gostar ainda menos do que imaginava do homem (pessoa-criatura) rude. Não do escritor, claro.

Ainda passei pela residência dele na Rua Fernando Pessoa – hoje Casa-Museu Miguel Torga, cedida pela filha à Câmara Municipal de Coimbra -, o contraste da lenha atimada a 1000% ao avesso do seu gabinete. Supus que ali não era da sua safra, mas de alguém a quem pagaria para usufruir de lenha dentro da cidade de Coimbra.

Ao tempo eu era membro número 18 da AJEP – Associação de Jovens Escritores de Portugal. Quando contava aos confrades ou outros que Torga me respondera num manuscrito e que me permitiu visitá-lo, uma plêiade enorme só acreditavam vendo o manuscrito. Algumas pessoas com quem cruzei nesta condição, contavam coisas como esperar num banco parte da noite para lhe chagar ao pé. Mas nada além da Rua Ferreira Borges, no Café A Brasileira – Coimbra – que fazia parte do seu trajecto diário de autocarro até à Portagem cuja janela ficava rigorosamente ao alcance do Mondego e ao alto o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.

Variadas confreiras e vários confrades, hoje escritoras e escritores conhecidissimos não mereceram a deferência que Torga me dispensara.

No dia 17 de Janeiro de 1995, quando Torga pereceu, estava eu doente e chovia muito, o que me dificultava a deslocação a Coimbra ou a São Martinho de Anta para ver o seu cadáver. Eram lágrimas de muitos, muitos que o admiram.

Desde entre contactos meus com criaturas de círculos que são as Letras que com Torga conviveram, contam episódios surreais de encontro ao que supunha.

Quando o visitei, não devia ter por dado adquirido que o imenso vate não pousaria para um registo pictórico ao dizer-lhe: doutor, uma fotografia não pode ser? Na vez de dizer: doutor, vamos tirar uma fotografia?

***

– De notar que o facto de Adolfo Rocha ser médico otorrinolaringologista, e eu, ia sofrer mais uma cirurgia na área da ortopedia, pode levar a supor que fui recebido pelo vate enquanto clínico – que à data já nem exercia, mas foi rigorosamente uma visita do âmbito literário.

– Este arrazoado podia ser elaborado apenas ao ritmo da minha interpretação, mas escrever sobre Torga inquieta muito e as ideias encastoam-se tornando difícil ordená-lo muito bem. Também serve para dar o gosto aos dedos, tal como um texto de opinião propícia ou dá possibilidade.

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)