De que está à procura ?

Colunistas

Sim, meu sargento

© Forças Armadas Portuguesas

A recruta foi acima de tudo uma experiência única, irrepetível.

Ganhei bons amigos, outros nem por isso.

Mas acima de tudo, dei-me bem a conviver com feitios totalmente diferentes uns dos outros.

Um preto que dizia ter uma hérnia na cabeça.

– Bem vê, meu aspirante…como posso eu aguentar todos estes exercícios puxados, se eu tenho uma hérnia na cabeça…

E o aspirante atestava-lhe um murro forte e seco, no peito, gritando de raiva, enquanto nós nos riamos à pala desta desculpa esfarrapada.

– Hérnia na cabeça…sua avantesma de merda. Toca a correr antes que eu lhe faça sair a hérnia pelas beiças do cu… 

O tipo que dormia na parte de cima do meu beliche e que se masturbava todas as noites. E no beliche de baixo, eu enfincava os pés na tábua onde assentava o seu colchão, e devagarinho ia-a erguendo até que ele ficasse a um ângulo de 45 graus, mas ele só parava já depois do auge do seu exercício de mãos…

O Alentejano grande que nem uma besta e que sempre que se zangava, o que acontecia quando estava bêbedo, oferecia porrada a todo o mundo.

– Vá…venham lá…um por um, avio-os a todos.

Dizia meio curvado, a afastar o rabo para trás, enquanto se fazia deslizar em ziguezague, de olhos avermelhados e testa franzida.

Como o ignorávamos a maior parte das vezes, acabava a ameaça por não dar em nada, a não ser em grandes gargalhadas e muito divertimento.

– Cala a boca, ó chaparro de merda. Estás é bêbedo.

O marmanjo de Aveiro que se gabava de ir aos paneleiros.

Sim, aos paneleiros, porque era assim mesmo que ele se referia quando nos contava as suas aventuras homossexuais, cheio de orgulho. 

– Estás a ver ali ao fundo? É por detrás daquela casa velha que eu às vezes levo para lá algum engate que faça na estação. Há sempre paneleiros por lá. 

Disse-nos com a maior das naturalidades, quando nos aproximávamos da estação de Aveiro, enquanto o comboio ia perdendo velocidade, até parar, para ali deixar entrar uns passageiros, e ficarem outros.

Ou o Açoriano que apesar de ter por nome de batismo, Zangão, estava sempre mal disposto e mal-encarado.

– Então Zangão, está tudo bem contigo?

– Porquê, tens alguma coisa com isso?

Sem esquecer também o Madeirense a quem chamávamos “o maluco”. 

O recruta das orelhas grandes, mais conhecido por Topo Gigio.

– Com essas badanas bem podes ouvir o que se passa do outro lado do Atlântico. Davas um espião perfeito.

Um outro alentejano de pálpebras semicerradas, nariz comprido, cara afunilada e quase sem pescoço, e que de cada vez que passava em frente de um espelho, levantava os braços e gritava, “Cristo, Cristo, porque me fizeste tão bonito.” 

E como se tudo isto não bastasse, um Algarvio que por ser tão comprido, dormia com os pés fora da cama, e por muito profundo que fosse o seu sono, nunca fechava os olhos totalmente. Dizia-se, em tom de brincadeira, 

– Este cabrão é tão desconfiado que até a dormir mantem os olhos meio abertos.

E por fim, o ribatejano que mal acordava, preparava o cachimbo de água onde metia uma boa pedra de haxixe, e assim que o pessoal começasse a sair para a formatura da manhã, apressadamente chegava lume à pedra do haxixe, e nas primeiras passas, enquanto sustinha o fumo nos pulmões, ficava de tal maneira vermelho de cara, e com as veias a desenharem-se-lhe no pescoço, que até dava a sensação que explodiria a qualquer momento.

Por isto e por muito mais coisas que se passaram nesses três meses de recruta, pela experiência que daí se tirou, eu diria que valeu a pena.

(Excerto do capítulo 4 de “Esta Pedra no Meu Sapato”)

António Magalhães 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

TÓPICOS

Siga-nos e receba as notícias do BOM DIA