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Saída da Ryanair dos Açores abala alojamento local

© DR

O alojamento local, um dos segmentos de turismo mais afetados pela saída da Ryanair nos Açores, prevê que 2026 traga os “piores resultados de sempre” nos rendimentos, com a quebra de hóspedes aliada à subida da inflação.

“Chegamos ao final do verão com empresas com menos rendimentos e com um recorde de custos, porque as empresas vão vendo as suas contas a aumentar, muito devido à inflação, aos custos de energia, da mão-de-obra também. O rendimento não aumentando da mesma forma, vamos ter o ano com os piores resultados de sempre para as empresas do alojamento local”, afirmou à agência Lusa, o presidente da Associação de Alojamento Local dos Açores (ALA), João Pinheiro.

Desde outubro que o número de dormidas em alojamentos turísticos nos Açores regista uma descida face ao período homólogo.

A apreensão dos empresários aumentou com a saída da companhia aérea de baixo custo Ryanair, no final de março.

Segundo o relatório mais recente do Serviço Regional de Estatística dos Açores, relativo ao mês de julho, a hotelaria tem mantido uma tendência “relativamente estável” nos últimos meses, mas no alojamento local, com exceção de março, registam-se reduções homólogas desde novembro.

No intervalo entre abril e julho, o alojamento local perdeu 72.746 dormidas (7,6%) face ao período homólogo.

O presidente da Associação de Alojamento Local dos Açores disse que os primeiros seis meses sem voos da Ryanair confirmaram o impacto previsto aquando do anúncio da companhia.

“O Alojamento Local é o setor mais afetado pela saída. Nós temos, mês após mês, vindo a ter quebras nas dormidas e é um resultado que já se adivinhava. São empresas que chegam ao final do verão com dificuldades”, apontou.

Os empresários já fazem as contas ao impacto do primeiro inverno sem uma companhia ‘low-cost’ a voar para os Açores.

“Os proprietários do alojamento local estão muito receosos com o início do inverno, porque olhando para os calendários, para as reservas futuras, o sinal não é animador. Vai trazer aqui um problema acrescido, não só para o alojamento local, mas para a economia local, para as pequenas e médias empresas”, alertou João Pinheiro.

Com o anúncio da saída da Ryanair, o executivo açoriano assegurou que estava a trabalhar com a TAP e a Azores Airlines – únicas companhias que ligam os Açores a Portugal continental desde março – para colmatar o vazio deixado pela companhia ‘low-cost’.

Segundo o empresário, não só a solução “não teve impacto”, como os preços das viagens para os Açores dispararam.

“Nós estamos a assistir todos os meses a uma inflação imensa nos custos do transporte para os Açores, principalmente porque só existem duas companhias de bandeira a fazer a viagem entre o continente e as ilhas. Foi um resultado já antecipado. Podíamos ter feito muito melhor, se nos ouvissem, se colocassem mãos à obra”, lamentou.

Nas páginas das agências imobiliárias nos Açores, já se encontram alguns anúncios de imóveis de alojamento local à venda.

O presidente da ALA salientou que muitos empresários fizeram investimentos para comprar e recuperar edifícios degradados, a contar com uma rentabilidade que não se confirmou.

Segundo João Pinheiro, há quem tenha optado por colocar o imóvel à venda e quem também esteja a despedir funcionários ou a deixar de contratar, “porque a perspetiva não é nada boa”.

“Se nos tivessem anunciado há cinco anos que a estratégia dos Açores seria ter só as companhias de bandeira a voar, retirando um ‘player’ do mercado como uma ‘low-cost’, que voava já há 10 anos para a região, muitos dos investidores não tinham feito os investimentos que fizeram”, sublinhou.

Numa reação aos números das dormidas em alojamentos turísticos, que têm baixado de mês para mês, o executivo açoriano alegou, em julho, que, apesar da “ligeira diminuição”, o setor “conseguiu gerar mais receita e aumentar os seus níveis de rentabilidade”, referindo-se a um aumento de proveitos na hotelaria.

Os relatórios do SREA não incluem os números dos proveitos do alojamento local, mas o presidente da ALA contradiz a visão mais otimista do Governo Regional.

“O que nos chega dos nossos associados é que, havendo menos hóspedes a chegar, há mais concorrência e há preços que estão a baixar. Há um conjunto de alojamentos a baixar o preço para tentar pelo menos salvaguardar a taxa de ocupação. Além da taxa de ocupação, que está a baixar, também temos os rendimentos, o preço médio, o RevPAR [rendimento por quarto disponível] a baixar”, indicou.

João Pinheiro defendeu que os Açores podem voltar a ter companhias aéreas ‘low-cost’, se houver “negociação” por parte da associação Visit Azores ou até do Turismo de Portugal.

“Eu acho que há interesse dessas companhias aéreas. Vamos comparar com a Região Autónoma de Madeira que tem três companhias ‘low-cost’ a voar o ano inteiro e nós neste momento não temos nenhuma”, frisou.

O presidente da ALA criticou também o “desinvestimento em promoção na área dos eventos, que era fulcral para as épocas baixas”.

“Há que desenvolver novamente os eventos para as épocas baixas, para dinamizar o mercado. A própria promoção digital está a falhar. Tem de haver mais comunicação com os setores do mercado, com áreas que estão interessadas em vir para os Açores na época baixa. Nós somos vendáveis o ano inteiro, agora é preciso que esta promoção seja bem feita”, vincou.

A Lusa procurou também ouvir a secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, sobre o impacto da saída da Ryanair, mas Berta Cabral não se mostrou disponível até ao momento.

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