“Bolas, é longíssimo.” Foi este o primeiro pensamento de Duarte Bué Alves quando soube que iria assumir o cargo de embaixador de Portugal em Díli, Timor-Leste. Depois de passagens por Luanda, Bruxelas, Tóquio, Paris e Manchester, o diplomata preparava-se para uma mudança radical: deixar o Reino Unido e viajar para o outro lado do mundo.
Cerca de 14 mil quilómetros separam Lisboa de Díli, numa viagem que atualmente pode demorar três dias e que, admite o embaixador, é “muito cansativa”. Porém, há algo que a carreira diplomática de quase 30 anos lhe ensinou: “adaptação, adaptação, adaptação”.
É precisamente sobre essa capacidade de recomeçar que começa a conversa no novo episódio do BOM DIA Diplomacia. O que é que uma vida passada entre países, culturas, equipas e contextos diferentes ensina sobre nós próprios? Para Duarte Bué Alves, a resposta passa pela resiliência e pela descoberta de que somos capazes de nos adaptar muito mais do que imaginamos.
Antes de Díli, houve Manchester. Entre 2021 e 2025, como cônsul-geral, acompanhou uma comunidade portuguesa espalhada por uma área que abrangia o norte de Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte e a ilha de Man. Foi aí que encontrou uma comunidade muito mais diversa do que esperava.

Foi também no final dessa missão que recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, atribuída pelo então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Uma distinção que recebeu com grande honra e gratidão, mas que não deixa de associar à equipa que o acompanhou em Manchester. O cônsul ou embaixador é sempre “o rosto visível”, mas, sublinha, “não se faz nada se não houver uma rede de suporte”.
Ao chegar a Díli, foi tempo de ser surpreendido. Timor-Leste revelou-se, nas suas palavras, “muito melhor do que aquilo que nós pensamos à distância”. Para o embaixador, isso acontece talvez porque, durante muitos anos, a imagem de Timor-Leste que chegava aos portugueses estava inevitavelmente ligada à ocupação indonésia, à violência e à luta pela autodeterminação. Hoje, Duarte Bué Alves descreve uma Díli junto ao mar, com um clima tropical, segura e com uma relação particularmente próxima com Portugal. O embaixador destaca a evolução de um país que percorreu um “percurso incrível” desde a independência.

Também a comunidade portuguesa mudou e, atualmente, vivem em Timor-Leste entre mil e 1500 portugueses, com forte presença nas áreas da educação, ensino e cultura, precisamente um reflexo das prioridades da cooperação portuguesa no país.
Quando questionado sobre se o melhor negócio diplomático faz-se à mesa de reuniões ou à mesa de jantar, o embaixador não hesita na resposta: “Acho que chegar à mesa de reuniões antecedido de um conhecimento das pessoas, por exemplo, à mesa de um almoço ou de um jantar é muitíssimo facilitador”. “A diplomacia não é nenhuma ciência oculta”, explica. É, também, uma questão de relações humanas. “Se há uma relação pessoal, se as pessoas se conhecem bem (…) o diálogo ou uma reunião de trabalho corre muito melhor. Na diplomacia é a mesma coisa”, acrescenta.
Mas, como sempre, a conversa vai além da diplomacia. Duarte Bué Alves fala também do gosto por viajar e revela um traço que parece acompanhá-lo tanto na vida profissional como pessoal: a organização. Convidado a escolher entre uma mala feita à última hora ou tudo preparado com antecedência, a decisão é clara: “tudo preparado com detalhe e antecedência”. “Sou muito organizado. Sou obsessivo com o cumprimento da agenda”, confessa. Para o embaixador, não há outra fórmula: “As coisas não se fazem em cima da hora”.

Quando lhe perguntamos se é mais difícil chegar ou despedir-se, a resposta surpreende: “O chegar é emocionalmente mais desgastante” porque chegar significa entrar no “desconhecido”, conhecer uma nova equipa, novos interlocutores, uma nova cidade e uma nova vida para construir.
O episódio está disponível nas plataformas digitais do BOM DIA (YouTube, Spotify e Apple Podcasts).
Texto: Fabiana Bravo