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A salvação 

© Oxalá Editora

Os doze membros do Conselho reuniram com o grande Mestre logo pela manhã. 

Em cima da távola redonda, pousavam em frente de cada membro, os papeis com a ordem do dia, que estava prestes a ser discutida.

O principal tema a discutir? A destruição total do planeta terra. Ou não…

O tema é delicadíssimo e tem-se arrastado sem solução, nas últimas semanas.

Dos doze membros do Conselho, cinco são a favor da destruição do planeta, cinco são absolutamente contra, e dois estão indecisos. Destes pode-se esperar um nim. Ou seja, tanto podem votar não, como podem votar sim.

No entanto, para que se possa dar uma resolução a este tema, só há duas soluções possíveis. Ou o Conselho é unânime na sua votação, ou, não sendo unânime, só o grande Mestre pode decidir, sem precisar da aprovação de ninguém. 

Um dos membros que é a favor da destruição do planeta chama-se Abel Zebu. Pode-se mesmo afirmar que Abel Zebu é apaixonadamente a favor da destruição total do planeta.

“Mestre…não faz sentido continuar a manter este planeta no universo. A humanidade não é confiável. Desde os tempos mais remotos que são totalmente incapazes de viver em harmonia uns com os outros. De todos os seres vivos que o grande Mestre criou para habitarem este planeta, estes humanos criaram algo a que chamam crueldade, sentimento que aplicam uns com os outros, e até mesmo com outras espécies, tanto terrestres, como marítimas. Este sentimento que eles inventaram, e que se chama crueldade, inflige sofrimento, a maior parte das vezes, sofrimento difícil, se não, impossível, de ser compreendido. Como se não bastasse, não satisfeitos com isso, são cruéis com o próprio planeta que o grande Mestre lhes proporcionou, ao ponto de colocarem eles mesmos esse mesmo planeta em risco de não sobreviver a essa crueldade. Que mais razões serão precisas para que se elimine simplesmente este planeta da face do universo?”

Abel Zebu defende a sua teoria com bastante convicção. Acredita no que diz, e se dúvidas restarem, prontifica-se a apresentar provas das suas afirmações.

No entanto, com o mesmo fervor e com a mesma convicção, um outro elemento do Conselho, chamado Jez Zus, defende que o planeta seja poupado pois continua a haver esperança para a humanidade.

“Sim Mestre, é verdade que muitos desses humanos são cruéis uns com os outros, ou até mesmo com outras espécies viventes. Mas também é verdade que são mais aqueles que acreditam no amor, sentimento que é um antídoto da crueldade, e nesses que acreditam, praticam e pregam esse sentimento, se confia o futuro da humanidade e do planeta que a sustem.”

A discussão manteve-se sem que se chegasse a um consenso unânime, por isso, todos se retiraram para que o grande Mestre refletisse no assunto para dar a sua decisão final.

Antes de deixar a sala onde fora feita a reunião, Jez Zus aproximou-se do grande Mestre. Levava na mão um livro. 

Disse.

– Mestre, eu sei que tem nas mãos um assunto bastante delicado para ser resolvido. Mas gostaria de lhe oferecer este livro, que trouxe recentemente do planeta terra. Talvez que a leitura deste livro, de alguma maneira, possa ajudar na resolução deste assunto tão delicado.

O grande Mestre pegou no livro que Jez Zus lhe entregou e deu um sorriso.

– Poesia…

Disse com a sua divina calma.

– O alimento das almas sofredoras, a luz que em nenhum lugar se extingue…

Disse Jez Zus ao mesmo tempo que fazia uma ligeira vénia ao grande Mestre, retirando-se da sala.

Nessa noite, antes de desligar a luz para finalmente dormir o sono do justo, o grande Mestre leu o livro sem o pousar, desde que iniciou a sua leitura, até que a concluísse. 

Quando terminou de ler o livro, o planeta estava salvo. Ou seja, o grande Mestre tinha tomado a sua decisão.

Não sabemos qual, ou quais, foram as verdadeiras razões que o levaram a decidir pela continuação do planeta e por consequência a humanidade que o habita.

Por isso, fomos à procura desse livro que nos salvou a todos.

Seria porque o grande Mestre leu…

“Será preciso mais do que uma dor para paralisar os movimentos. Mais do que um pesadelo para aniquilar os sonhos.

Mais do que um silêncio para calar a voz!

Mais do que uma lágrima para roubar o sorriso. Mais do que um desequilíbrio para evitar a queda.

Será preciso mais do que uma desilusão para que deixes de acreditar no amor!”

Ou seria porque o grande Mestre leu,

“Depois da tempestade chega agora um tempo de calmaria.

Descansas dos medos e da raiva. Sentes uma brisa de paz invadir o coração. Esqueces o pesadelo que te rondava as noites. Descuras a outra em ti que já não reconheces.

A eternidade ainda é um caminho distante!

Não sabemos o que levou o grande Mestre a decidir finalmente dar o veredito final para a sorte do planeta terra e de todos os seres viventes e não viventes.

Mas sabemos que tomou essa decisão final quando terminou a leitura apaixonada do livro, “A Luz Em Nenhum Lugar Se Extingue”.

Este livro escrito pela poetisa e mulher de letras, São Gonçalves, é um livro de sentimentos íntimos e complexos da condição humana, descodificados com grande mestria literária, numa autêntica viagem pelas diferentes fases da vida, e das suas complexidades, que apesar de tudo semeiam esperanças em terrenos por vezes áridos, onde a persistência humana teima em resistir e continuar o seu caminho.

“Contemplas a luz do sol, nessa manhã primaveril, sentes a vida a tomar um novo brilho, um novo sentido, porque é de luz que inundas os olhos cansados de tanta escuridão.”

O que seria do mundo sem poetas? 

Certamente um mundo vazio, sem cor nem vida que justificasse viver. Se o grande Mestre decidiu não terminar com o mundo que para nós criou, é porque viu nos poetas a justificação suficiente para acreditar no futuro da humanidade.

Mas, eu pessoalmente, acho que foi nestes versos que o grande Mestre tirou as certezas da sua decisão na continuidade da nossa existência, quando a poetisa escreveu…

“Permite-te ouvir a voz interior e as vozes antigas, pertenças da tua ancestralidade.

Do diálogo interior surgiu uma narrativa de vozes e silêncios, de trevas e de luz. Um espaço de pertença, íntimo, sagrado…

Um longo poema, onde escreves a semântica da chegada e da partida.

Reflexões a dar sentido ao passado e ao presente.

Apesar das sombras, acolhes nas tuas mãos côncavas a luz que em nenhum lugar se extingue.”

António Magalhães 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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