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Tríptico da Revelação

I. Omnisciências

Enrolei o cordel
novamente no carretel.
Com cuidado, é o fio da vida!
Oh, a vida mesmo quando acometida
encontra sempre uma maneira,
nunca te esqueças da tua primeira
aula de Ciências. Ah, reminiscências…
Omnisciências!
Então, não se nasce só uma vez?
Não, só se morre uma vez,
mas podemos nascer muitas vezes…
“…e muitas vidas, muitas vidas,
tudo isso, agora me perco
de mim e vou a transviar
quero chamar a mim, e cerco
meu ser de tudo relembrar…”
E o resto?
O resto é propaganda!

Como é que já diziam as trovas do Gonçalo Anes?
Quem, o sapateiro de Trancoso?
“… quando as estradas se vestirem de luto
e os cavalos sem cabeça correrem as pradarias
e os fios suspensos já não sibilarem mais
o tempo desfiado estará contado
a dois mil chegarás, mas daí não passarás!”
E depois suplicou,
por favor, dá-me mais um pouco,
mais um pouco de tempo,
este passou tão depressa e louco.
Por serem meus filhos, eu dou.
E dizendo isto agarrou
uma mão cheia de areia
e lançou-a ao vento
como quem semeia
dias, e toma lá mais estes!
Não foi ele quem disse isso,
mas não interessa, o que importa
é que no tempo do fim e no fim dos tempos
os quatro cavaleiros fecham a porta.
É, eu sei, a ampulheta está parada
e a clepsidra seca, mas nada!,
in fine e in extremis
Deus ex machina omnipotencia plenamente
e o aggiornamento é adiado novamente.

II. O homem

Depois da folia das hegemonias
edificadas em esforços superlativados
e vangloriadas com “tuba canora”
pelos escribas do tempo –
esses propagandistas antes da hora,
os mesmos que silenciaram
os massacres e as chacinas cometidas
por meio torrão de terra
por meio quinhão de mar
e os milhões de cadáveres
que repousam à sombra
das estátuas equestres dos heróis –,
todos os impérios acabaram por cair
em ruínas ou no esquecimento
inelutável e inexoravelmente.

A guerra depois da guerra derradeira
não conduziu a silogismos nenhuns
nem “os povos todos juntados”
no mesmo monólito de jade
construído orgulhosamente na ilha roubada
impediram mais cidades arrasadas
e o tropel das crianças incendiadas,
estrelas candentes já sem sonhos.
O Mundo chorou, lamentou
assoou o ranho à manga suja
e prometeu que não fazia nunca mais,
mas fez e voltou a fazer.

Quando chegou ao Mar da Tranquilidade,
margens do oceano cósmico,
todo o Universo se tornou mais vasto
e mais próximo ao mesmo tempo,
o homem do passo pequeno
podia ter dado um salto gigantesco
até outros mundos e mais além-quimera,
mas não deu e o futuro ficou ali à espera.

Fez os grãos e as sementes
crescerem mais depressa que as estações
queimou florestas, desviou os rios,
as águas do céu e as ondas do mar,
mas não saciou a sede nem a fome
dos oprimidos, dos famintos, dos sem nome
apenas criou mais opressores
insaciáveis e devoradores.

A abolição das leis negras, as sublevações de Paris,
a libertação sexual, a revolução dos cravos
o enferrujar da foice, a queda do muro
os ditadores depostos, o azul estrelado
podiam ter dado à luz uma nova manhã…

Mas pariram o Ruanda, Srebrenica
o ruir das gémeas, mais tempestades nos desertos
mais ciclones e maremotos incertos
a Sharia adulterada para justificar
estupros, degolações, execuções
expropriados, desterrados, exilados,
refugiados, párias, expatriados,
pais com filhos ao colo
em vez de afagar afogam
e grávidas desesperadas escalam
o arame farpado das fronteiras
a maior turba de migrações
desde o degelo das geleiras
e os mares transformados
em cemitério para milhões.

A liberdade conquistada de pensar,
de agir e de procurar a felicidade
foi trocada pela leviandade
de fazer tudo a todos
e não ensinou mais nada.
A liberdade subjugada
de pedra preciosa desejada
passou a assumida e de consumida
a violada e olvidada.

O homem, sim, acabou por ir à Lua,
mas as flores de Abril murcharam na Terra,
o homem pensou estar livre
já não ser marioneta de fios
mas depois agrilhoou-se ele próprio
a novas máquinas, novos ídolos
novas imagens sem fios,
wi-fi, hi-fi, i-fone, afono, átono,
estar ali sem estar, alienado, alien
sem sentido, sem realidade,
agarrado a essas janelas
que não se abrem para o mundo, mas o fecham
e prendendo-se perdeu-se
como sempre, outra vez, no caminho.

E a pedra de Pedro, Senhor,
que devia indicar a senda
sem resolver a sua própria contenda
também ficou por renovar
o edifício por restaurar
vai ruir sem estertor.

Houve a espaços nesses lustros
várias faúlhas de luz
mas eram muito poucos a alimentá-la
e a esperança morreu solteira,
e o destino desdito ficou ditado.

Não sabes, ó criança desnaturada
que a liberdade condicional
pode ser revogada?

III. Escatologia

Os observadores, os protectores
os mensageiros, serafins e afins
cansados da demora da desforra
da espera subalterna e eterna
prontos a lançar-se para poder
arrancar o tumor viscoso do ser
devorar o verme e o seu germe
foram novamente frustrados
e a espada e as asas travadas
em pleno voo.

Porque apesar das rasuras
e das linhas tortas e duras
o que foi escrito é bom
e a mão superior e omnisciente
vai detendo sempre o punhal fatal
como desde Abraão,
toma lá mais meio-século de posterga!

Mas até quando, até quando?
E agora, é agora?
É agora, dizia Chico Xavier!
Anunciado por pítias, oráculos, adivinhos,
bruxas, mágicos, o Bandarra
e Michel de Nostradame
esse apocalipse do grande vaccarme
nunca mais se revela
uma história interminável
pior que uma telenovela
mais longo que as mil noites
de Shérazade e do rei persa
como num mau filme feito à pressa
em perpétua reposição,
o pináculo do tédio, do enfado
e da chateação.

Mas não, enganas-te!,
o fim nunca é o mesmo,
não reparaste?

Game over e joga outra vez,
nunca nada é o fim
e sempre um recomeço
de outra coisa qualquer.
Buraco negro, fonte branca
pitch black ou whiteout,
o que havia afinal antes do Big Bang?
O mesmo do que agora
só que diferente.
Mas igual.

JLC10072019