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Quem cuida de si, líder?

A pandemia covid-19 gerou mudanças nas empresas, nas rotinas de trabalho e nas responsabilidades dos líderes. Muitos líderes reportam o aumento do volume de tarefas, de emails, de responsabilidades da sua função e das reuniões. Como me referia um cliente: “Há uma sensação de que nunca paramos de estar à frente do Zoom, o que é muito desgastante.”

Por outro lado, estudos mostram que em muitas empresas as reuniões tornaram-se mais objetivas e diretas ao ponto. Porém, houve uma grande perda na comunicação informal e na proximidade dos relacionamentos entre os colaboradores, o que preocupa os líderes.

Os gestores também foram chamados a intervir e apoiar as suas equipas a remoto, desde estabelecer novas rotinas de trabalho e objetivos, acompanhar e até mesmo prestar apoio psicológico e familiar aos seus colaboradores. Dos líderes espera-se que demonstrem calma e otimismo, preparem, motivem, conduzam e garantam o bem-estar de suas equipas.

Mas, quem toma conta do líder?

Num estudo global da Oracle e Workplace Intelligence, mais de quatro em cada cinco executivos C-suite (85%) relataram problemas com o trabalho remoto, sendo que 35% viu o seu stress e ansiedade aumentarem. Com a disrupção causada pela COVID-19, 53% dos líderes disseram que enfrentaram problemas de saúde mental no trabalho desde o início da crise de saúde global. Noutro estudo conduzido pela School for CEOs, com o objetivo de entender o impacto psicológico da quarentena de mais de 700 executivos, concluiu que 42% demonstrou estar em risco de burnout, sendo que os líderes de idades entre os 24 e 38 anos estavam em maior risco (68%).

O que está por detrás desses números?

A covid-19 não somente sacudiu com a rotina do trabalho, numa mudança repentina na forma de trabalhar, de gerir as pessoas e no ambiente de trabalho – casa, mas também teve repercussão nas empresas e na economia, levando os líderes a trabalharem em situações extremamente exigentes e stressantes. Neste turbulento mercado, espera-se que os gestores, sob pressão, tenham uma visão de longo prazo e um conjunto de soluções na manga, a curto prazo. No entanto, com toda a sua experiência e foco na solução, líderes estão lutando num território desconhecido em meio de um nevoeiro – a pandemia. Não obstante, a última pandemia ocorreu há um século, nenhuma formação ou experiência os preparou para lidar com uma crise derivada de uma pandemia.

E se essa conjuntura não bastasse, soma-se a frustração do líder em não ter resposta, quando as suas equipes procuram por orientação, já que ele próprio se debate com muitas perguntas para as quais não encontra respostas.

O que fazer, então?

Como um equilibrista de múltiplos pratos chineses, o seu desafio, líder, é equilibrar todos os pratos em alta rotação, sem perder o equilíbrio que parte do seu centro, de si próprio. Como eu destaquei no título deste artigo – quem cuidará de si, quando é esperado que cuide de todos? Recorde-se que lhe é ensinado, em caso de emergência aérea, que deve primeiramente colocar a sua máscara de oxigénio, para depois colocar no outro, porque, caso contrário, pode não ter oxigénio suficiente para salvar a si e nem os outros. E qual é a sua máscara de oxigénio?

1 – Cuide das suas sensações e sentimentos

Cansaço, fadiga, frustração e impotência podem interferir na sua capacidade de julgamento, escuta, processo de decisão, desempenho e comunicação. Ser capaz de compreender e aceitar que os seus sentimentos e emoções interferem com o seu rendimento e liderança é crucial. Porém, não chega. É importante identificá-los e fazer o rastreio do que está a causar-lhe stress, ansiedade ou frustração.
Muitas vezes atribui-se a causa desses sentimentos ou sensações de mal-estar ao dia que não correu bem, ou a uma situação específica do trabalho. Contudo, há também motivos subjacentes que pertencem ao seu mundo emocional que precisam de ser resolvidos, a fim de que não interfiram com o seu bem-estar psicológico, mas que, em vez disso, o fortaleçam para os desafios diários. Já tive líderes com dificuldades com o confronto, com receio de problemas num projeto futuro, ou de uma conversa difícil que adiavam, por não estarem conscientes dos seus sentimentos, do que lhes causava esses sentimentos e o quanto isso os limitava. Agir na causa, com ajuda apropriada, trará variados benefícios e reduzirá certamente o risco de esgotamento.

2 – Você é invencível até não ser mais.

Vamos ser honestos – Nós, líderes, acostumados com tantas solicitações, consideramos que conseguimos resolvê-las, aguentar toda a pressão, lidar com todas as exigências e seguir em frente. Somos como o boneco João bobo, que leva um murro, mas logo se levanta sem cair. Eu própria, como líder, já me considerei, como os outros me viam, sólida como uma rocha. Mas, ainda bem que aprendi, numa altura em que viajava e trabalhava ininterruptamente, que não sou invencível e que preciso de equilíbrio para viver uma vida com significado. Afinal, se não tiver rotinas que me proporcionem prazer e que revigorem o meu ser, como posso estar com a mente e o corpo sãos para o trabalho e para as outras pessoas?

Por isso, não ignore as necessidades do seu corpo e crie micro-hábitos, pequenas rotinas que o possam ajudar na manutenção da sua resistência física e mental. Podem ser simples atividades, mas que, realizadas de forma constante, podem fazer uma grande diferença. Eu, por exemplo, gosto de iniciar o meu dia com uma atividade física, que me faz sentir com um boost de energia, revitaliza a minha mente e ainda sinto que tive um momento meu a fazer algo de que gosto. Realizar uma atividade física que seja impulsionadora de energia, numa hora que impacta no seu bem-estar, é um micro-hábito. Outros micro-hábitos que lhe ocupam apenas 25 minutos, como assistir um vídeo de humor, uma pausa para um bom café, uma leitura agradável, conversar com um amigo, podem salvar-lhe o dia, naquelas horas de vitalidade mais baixa, ou a meio de um dia desgastante, ou ainda antes de uma reunião mais desafiadora. Esses micro-hábitos levam a que altere o seu estado anímico, relaxe e possa estar mais bem-disposto para enfrentar o que se segue.

3 – Faça uma análise das lacunas

Sem dúvida, é importante fazer uma análise das lacunas de gestão, que podem estar na estratégia, nos processos e procedimentos, ou na tática, procurando resolvê-las para um melhor desempenho seu e da sua equipe. Contudo, a lacuna que está a criar problemas na sua gestão, pode estar em si, como por exemplo, no ato de delegar.
No curso que estou a ministrar para líderes, estive a trabalhar com um diretor que compreendeu, com a minha condução, que o problema dele estava em delegar, o que, para ele, não era tão evidente assim. Foi um momento eureka! Ele delegava, mas não tudo o que podia e nem com a confiança que seria necessária. Ou seja, o controlo mantinha-se subjacente. Essa atitude estava a causar-lhe problemas – com alguns colaboradores eram problemas referentes à autorresponsabilidade, com outros relativamente a comunicação e estabelecer limites, e tudo isso o sobrecarregava. Durante o curso e as sessões individuais tornaram-se evidentes as causas que o limitavam. Após o trabalho que desenvolvemos juntos, a mudança refletiu-se claramente na empresa, na equipa e nele próprio.

Se isso não for suficiente?

Os líderes desempenham um papel crítico nas organizações, como pilar central para a promoção da saúde mental e de um bom ambiente de trabalho.
A Humanistic Academy disponibiliza cursos e sessões individuais para executivos, desenvolvendo estratégias que os ajudem a cuidar de si, pois um líder com boa saúde mental, resulta numa organização saudável.

Karina M. Kimmig

Karina Kimmig foi galardoada com o Prêmio Competência Profissional Internacional Mulher, no Brasil, e Top Coach na Alemanha. Ela ministra cursos para líderes, é autora do livro “Metodologia Humanística: Os Sete Poderes que Todos Nós Possuímos”, CEO, Presidente de associações internacionais, cocriadora da MORE Humanistic Methodology, escritora e referência internacional em desenvolvimento humano.

Mais: https://karinakimmig.com/ https://bomdia.eu/quem-cuida-de-si-lider/

 

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