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Livro sobre exilados e desertores portugueses vai ser apresentado em Paris

O livro “Exílios.2 – Testemunhos dos Exilados e Desertores Portugueses (1961-1974)” vai ser apresentado esta quinta-feira, na Librairie Portugaise et Brésilienne, em Paris.

A obra, que apresenta cerca de 30 testemunhos de pessoas que lutaram contra a ditadura e o colonialismo a partir da diáspora, é a continuação de um primeiro livro, publicado em 2016, que apresentava outros relatos biográficos [“Exílios – Testemunhos dos Exilados e Desertores Portugueses na Europa (1961 e 1974)”].

A Associação de Exilados Políticos Portugueses (AEP61-74), que editou o livro, destacou no título a palavra “desertores” para levar o tema “para o espaço público” porque é “um assunto absolutamente desconhecido” e “um assunto tabu” em Portugal, explicou Fernando Cardoso, presidente da associação.

“É apenas querer oferecer à história, digamos assim, estas histórias de vida de gente que pura e simplesmente não existia, que não estava no espaço público. Era um assunto desconhecido”, afirmou o coordenador geral do projeto, Fernando Cardoso, sublinhando que o primeiro livro foi “um fator desencadeador de memórias e lembranças” ao abordar as problemáticas do exílio, da guerra e da luta anticolonial.

O presidente da AEP61-74 indicou que, de acordo com estudos dos investigadores Miguel Cardina e Susana Martins baseados nos arquivos do exército, houve 8.500 desertores e cerca de 200 mil pessoas que não foram à inspeção militar, ou seja, “não era um fenómeno de elite”, não eram só “os meninos ricos que iam para Paris para o Café Luxemburgo enquanto os pais lhes pagavam as mesadas universitárias”.

“É um mito da sociedade portuguesa que continua a persistir, mas os números demonstram exatamente o contrário. Portanto, a grande maioria dos desertores não eram pessoas de famílias ricas, nem eram oficiais, eram pessoas que não queriam ir à guerra, que recusavam terminantemente cometer crimes contra povos que estavam apenas a lutar pela sua liberdade”, afirmou.

No livro, há relatos de exilados que eram membros de organizações políticas, que editavam jornais, que “levantavam o problema de Portugal, do fascismo, da guerra colonial nos sítios onde estavam” e há testemunhos de desertores que ajudaram ou foram ajudados pelos comités de desertores portugueses na Europa que começaram a surgir no início dos anos 1970, em França, na Holanda, na Dinamarca e na Suécia.

“No caso do comité de desertores da Dinamarca nós tivemos uma experiência que foi uma fragata portuguesa englobada nas manobras da NATO, em 1973, em que num dos portos se fez uma manifestação quando a fragata atracou. Conseguimos que desertassem da fragata seis marinheiros”, contou à Lusa Joaquim Saraiva, cofundador do comité de desertores portugueses da Dinamarca.

A causa dos comités dos desertores era apoiada por intelectuais franceses, como o historiador e crítico de cinema Pierre Sorlin, “a figura de cabeça do comité de Paris” e o filósofo Jean-Paul Sartre, diretor do jornal ‘O Alarme’.

Joaquim Nunes, que contou a sua história no “Exílios.2”, estava há seis meses no serviço militar e foi convocado para a Guiné-Bissau, mas não pôde usufruir de licença antes de embarcar devido à sua conhecida atividade política.

O português recordou à Lusa que saltou os muros do quartel a 22 de setembro de 1972 e chegou a Paris a 1 de outubro, tendo aí ficado até pouco depois do 25 de abril de 1974 e militado “numa série de grupos da esquerda revolucionária”.

No 25 de abril, “foi a explosão”, em que “centenas de pessoas ocuparam o Consulado de Portugal em Paris” e “passaram-se milhares de passaportes” para os que queriam regressar, enquanto na rua “dezenas de carrinhas da polícia de choque francesa circulavam na iminência de intervir”.

Joaquim Nunes vai ser um dos intervenientes do debate intitulado “Acolher os exilados, ontem e hoje”, que vai decorrer no sábado na sala EDMP, em Paris, organizado pela associação Mémoire Vive/Memória Viva.

A falta de solidariedade internacional de hoje, face às memórias do passado, foi também sublinhada, em conclusão, por Fernando Cardoso: “Nós sentimos, durante o período em que estivemos exilados, a verdadeira solidariedade. Sentimos apoio em vários níveis, quer a nível de casa, comida, dinheiro. Quando hoje olho para a questão dos refugiados das atuais guerras vejo que a Europa esqueceu profundamente a solidariedade e o que é ajudar quem precisa objetivamente”.