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Frei Xavier Plassat: uma vida a serviço radical do evangelho

Nascido na cidade francesa de Roost-Warendin, Xavier Jean Marie Plassat graduou-se em Ciências Políticas pela Universidade de Paris, em 1970. No ano seguinte, ingressou na Ordem Dominicana. Amigo de Frei Tito de Alencar, torturado e exilado durante a ditadura militar, organizou e publicou seus escritos, no livro intitulado “Todas as pedras gritarão”.

Em 1989, mudou-se para o Brasil e, desde então, dedicou-se intensamente à Comissão Pastoral da Terra e à luta pela erradicação do trabalho escravo no campo. Por seu trabalho social, recebeu a Medalha Chico Mendes de Resistência( 2006), o Prêmio Nacional de Direitos Humanos (2008) e o Prêmio Herói do US TIP Report (Tráfico de Pessoas), do governo Barack Obama (2010).

Quando descobriu a inclinação à vida religiosa?

Depois de um forte engajamento vivenciado na ação católica, no tempo da juventude e dos estudos universitários (maio de 1968), optei pela vida religiosa consagrada, ingressando na Ordem dos Frades Dominicanos, como uma forma de dedicar minha vida, sonhos, energias, inteligência, pulsões, a um modo de seguimento radical da proposta de vida evangélica de Jesus, numa modalidade despojada, com experiência comprovada. Essa proposta de ‘vida apostólica’, também conhecida como ‘a proposta do Reino da Vida’ (ou Reino de Deus), me pareceu ser o bastante para motivar e encher uma vida.

Pode nos contar sobre sua experiência de coordenar a campanha da Comissão Pastoral da Terra (CPT) contra o trabalho escravo?

Somente depois de ter chegado ao Brasil para servir na CPT, na região Araguaia-Tocantins, já com quase 40 anos de idade, foi que descobri a existência do trabalho escravo “moderno’, uma prática secular, quase considerada como ‘normal’, por ter sido tão habitual nas relações de exploração laboral em vigor no Norte e Nordeste do Brasil. Eu tive a oportunidade de aprender junto a grandes mestres, também membros ativos da CPT: Pedro Casaldáliga, um dos primeiros a botar a boca no trombone contra a escravização dos peões e dos indígenas, Henri Burin des Roziers, dominicano animado pelo grito de Montesinos e a paixão de Las Casas. Foi sob a sua impulsão que decidimos, em 1997, iniciar uma campanha nacional permanente de denúncia e combate ao trabalho escravo, com um lema autoexplicativo: De Olho Aberto para Não Virar Escravo! E o com objetivo de qualificar e mobilizar nossas equipes da CPT Brasil afora para esse combate, de provocar a sociedade e o poder público a tomar atitude. Acabei assumindo a coordenação deste trabalho e nele estou até hoje. É gratificante ver que essa nossa teimosia e boa articulação produziram frutos: políticas públicas, resgate de milhares de pessoas, mobilização de inúmeros grupos e comunidades.

O dominicano Henri des Roziers, seu amigo, dedicou 40 anos de sua vida aos camponeses. Foi, inclusive, jurado de morte por fazendeiros, necessitando de proteção policial. Como enxerga as ameaças àqueles que lutam por causas sociais dentro da Igreja em nosso país?

Essas ameaças comprovam o quanto, nesse combate pelo direito e pela justiça, o que está em jogo é real e simplesmente a vida. A vida do pobre, a vida do posseiro, a vida da população originária é uma vida que não vale nada na balança dos lucros do latifúndio e do moderno agrobusiness. Ameaçar de morte quem assume essa defesa é simplesmente ratificar a densidade trágica da história à qual colaboramos, optando (ou não) pela fidelidade inarredável ao ideal bíblico. Desde sempre, tudo se resume em poucas palavras: cadê teu irmão?

O Senhor era estudante universitário, quando conheceu Frei Tito. Que referências tinha, naquele momento, do Brasil?

Conheci primeiro a história da prisão de alguns frades dominicanos do Brasil, pelo seu compromisso na defesa dos direitos, especialmente dos militantes perseguidos pela ditadura militar, na história conhecida como o caso Marighela. Eu estudava Ciências Políticas, em Paris, entre 1967 e 1971, foi então que eu soube, pelas informações do Le Monde, das prisões, das torturas, da tentativa de suicídio do Tito, destinada a romper o silêncio da Igreja sobre as torturas. Só conheci frei Tito mais tarde, já exilado na Europa. Foi no início da primavera de 1973, quando ele veio morar conosco no convento dos dominicanos de L´Arbresle, perto de Lyon, onde eu havia chegado pouco antes, depois de ingressar na Ordem, no final de 1971. O que eu sabia do Brasil na época resultava de várias leituras que, já nos meus tempos da Ação Católica, me tinham colocado em sintonia com aquelas experiências de uma igreja latino-americana decididamente engajada ao lado dos pobres, profética. Em Paris, eu tinha participado de eventos memoráveis na presença de Dom Helder Câmara.

Como os escritos de Frei Tito chegaram às suas mãos e quatro décadas depois foram publicados, sob sua supervisão?

Tito e eu convivemos na mesma comunidade por mais de um ano. Poucos anos nos separavam. Presenciei seu tormento. Por força da empatia e da amizade, me toquei profundamente com seu sofrimento. Juntos, nós lutamos contra o diabo do torturador que havia deitado morada na sua mente, o sinistro delegado Sérgio Fleury, do DOPS paulista, o mesmo que havia prometido a Tito, depois de sua primeira tentativa de suicídio: “Nunca mais esquecerás o preço da sua ousadia!”. Não conseguimos impedir que Tito se matasse, em agosto de 1974, não sem ter rabiscado, dias antes, estas palavras tão cristalinas: “Melhor morrer que perder a vida”. Na época, vasculhei seus magros pertences, fui ao encontro de poesias de sua autoria e de textos diversos de suas correspondências e entrevistas e logo, em outubro de 1974, publiquei, de forma artesanal, uma coletânea desses textos, que depois virou um livro, publicado na França em 1980. Esse mesmo livro traduzi, adaptei e publiquei no Brasil, em 2014, com o mesmo título, “As próprias pedras gritarão”.

Em que momento decidiu-se por fixar-se no Brasil e trabalhar pelos excluídos?

O sonho do Brasil me habitou desde cedo, bem antes de conhecer Tito. Mas só pus os pés no Brasil por causa de Tito. Foi em março de 1983, nove anos após sua morte na França, quando acompanhei o retorno de seus restos mortais ao Brasil, um momento ímpar de reencontro do país com a sua história de luta, já entrevendo o próximo fim do regime militar. Vivenciei celebrações em homenagem a Tito, em São Paulo e Fortaleza, onde foi sepultado. Aproveitei para ficar mais três semanas, para conhecer a situação do campo e a atuação da CPT, guiado por meu confrade frei Henri, presente aqui, desde 1978. Esses encontros foram determinantes e me levaram a solicitar minha transferência para o Brasil, que ocorreu em 1989.

O Senhor afirmou, tempos atrás, que “Lucrar é a razão derradeira que move o escravagista, não a maldade em si”. Acredita que o escravagista não percebe a humilhação e a violência exercida contra seu semelhante?

A cegueira é ao mesmo tempo uma enfermidade e uma maldade consentida por muita gente. Claro que quando humilha o seu próximo, o explorador, o torturador, o racista, todos eles têm consciência do que estão a fazer, mas eles têm a mente e o coração acobertados de tantas razões tortas e interesseiras que elas tornam o crime natural. Negar no outro nossa comum filiação divina tem um nome: idolatria. Ela é essa propensão a se deixar guiar por um deus a nosso serviço e nossa disposição, Mamom ou quem quer que seja.

Que fatores, hoje, favorecem o trabalho escravo no Brasil e quais desafios considera maiores para superá-los?

O que mantém a roda do trabalho escravo é a permanência de um ciclo vicioso que envolve esse tripé diabólico: ganância, miséria, impunidade. Costuma-se dizer que vítimas da escravidão moderna são pessoas e grupos sociais marcados por uma discriminação estrutural, histórica, assentada em preconceitos de raça, de etnia, de classe. No caso do Brasil, a vítima principal do trabalho escravo ‘moderno’ é afrodescendente, a mesma categoria vitimada pela escravidão colonial. Um dos principais desafios a superar para reverter essa situação herdada, nunca cortada, é conseguir dar visibilidade à situação das vítimas, abrindo o olho, a boca e nossos braços, tornando visível o problema em todas as suas dimensões, provocando a mobilização da sociedade, das igrejas e dos Estados, para reagir, denunciar, resistir e mudar este quadro.

Sente-se respaldado pela alta hierarquia da Igreja Católica no que tange à sua atuação em favor dos oprimidos?

Considero o Papa Francisco como um grande aliado nesse combate. Ele teve, de longa data, a experiência de lutar contra a chaga do tráfico de pessoas e da escravidão moderna e não perde uma oportunidade para destacar a importância do combate, para nós que colocamos nossa fé num Deus que só se deu a conhecer libertando escravos do cativeiro. No Brasil, a direção da Conferência Episcopal tem demonstrado apoio constante à essa causa. Graças a Deus!

Quais figuras, dentro do clero e fora dele, têm sido sua inspiração maior?

Já citei algumas aqui: Helder Câmara, Pedro Casaldáliga, Henri Burin. Eu poderia citar muitos outros e outras, entre conhecidos, como a irmã Dorothy Stang, o Padre Josimo Tavares, que conheci pessoalmente, José Cláudio e sua esposa Maria do Espírito Santo, Marielle Franco, assassinados/as no Brasil pela causa da justiça e outros vários anônimos que cruzei nos caminhos da CPT, peões heroicos, que ao fugir da fazenda, arriscando a própria vida para denunciar a opressão, salvaram a vida de muitos: Jucimar, Raimunda, Luis, Elias, Nerisvan, Genival, Pureza.

Sobre o autor da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.

 

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