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Euro visão e o urso faminto

Ainda ecoa em mim: “Luxembourg, douze points!”. Nessa época, Portugal nunca recebia doze pontos, o Luxemburgo já colecionava vitórias. Era uma época em que uma portuguesa (Marie Myriam, 1977) ganhava em nome da França, noutro ano uma francesa (Corinne Hermès, 1983) ganhava pelo Luxemburgo, uma canadiana (Céline Dion, 1988) levava o troféu para a Suíça no mesmo ano em que uma italo-belga (Lara Fabian) representava o Grão-Ducado.

Para mim a Eurovisão era isso tudo. Uma festa entre nações em que as fronteiras

– que um dia haveriam de ser abolidas por um acordo assinado numa recuada aldeola das encostas vinícolas do sudeste luxemburguês –,

já não existiam naquele palco. Ali só havia lugar para canções, danças e uma colaboração festiva e televisiva dentro de uma união entre europeus que ainda não lhe assumiam o nome.

Mas era até bem mais do que isso, porque já se aceitavam na festa países que nem da Europa fazem parte como Israel ou Marrocos. E se parecia bizarro nessa época, hoje já ninguém estranha uma Austrália no palco do Eurofestival. E só dá para perceber que os “aussies” façam parte desta nossa eurofesta quando nos compreendemos que a Eurovisão não é apenas um arraial europeu

– arraial no sentido mais prestigiante da palavra, porque sendo popular e acessível, agradando a pessoas de todas as franjas da população, veicula cultura e promove o entendimento entre povos e nações –

arraial europeu, dizia eu, que é dos espetáculos de entretenimento televisivos mais vistos não só na Austrália, mas também em todo o mundo, havendo da América Latina ao Japão, dos Estados Unidos a África séquitos de fãs incondicionais que religiosamente todos os anos seguem o Eurofestival da canção. A Eurovisão passou a ser assim em mundovisão.

E a Eurovisão que nasceu no mesmo ano da União Europeia (primeiro CECA, depois CEE), foi criada com o mesmo propósito: promover a paz e a cooperação entre países europeus no pós-II Guerra Mundial, e ser uma extensão festiva dessa cooperação económica primeiro, política depois, entre nações, de modo a que um novo conflito no continente europeu se tornasse “não só impensável, como materialmente impossível”, como se lê no discurso fundador da UE proferido em 9 de maio de 1950 por Robert Schuman, ministro francês dos Negócios Estrangeiros, nascido no bairro de Clausen, no Luxemburgo.

Na semana passada foi assim com renovado otimismo que voltei a ver 40 países da Europa a disputar-se o microfone de cristal, numa competição alegre e saudável, numa festa que animava não só o “green room” do Pala Olimpico
em Turim, mas todos os fãs da Eurovisão de Lisboa a Kiev, de Reykjavik a Baku, prova que os povos europeus querem estar e festejar juntos, que são maioritariamente a favor da paz, do entendimento, da cooperação e da colaboração mútuas.

Sem vos querer confessar que, na verdade, sou um ferrenho federalista europeu, a minha “EU-foria” com a Eurovisão foi manchada este ano por um sabor acerbo, um travo acetoso e amargo que me estragou a festa. Porque há uma questão que me atormenta e consome há quase três meses: como é possível termos conseguido o impossível sonho europeu –

um espaço de paz e cooperação que não é perfeito, por certo, pois tem ainda muito a ajustar, nomeadamente a aproximação aos seus cidadãos e políticas sociais comuns mais justas e equilibradas entre Estados-membros, e por isso tem sofrido momentos difíceis, recuos, pausas forçadas, mas felizmente também avanços, por vezes aos solavancos, mas um espaço duradouro no tempo, num continente que conhecia guerras sucessivas entre países vizinhos há séculos, um espaço que vai evoluindo, crescendo e granjeando cada vez mais membros que partilham esse mesmo sonho supranacional, algo que continua sem igual no resto do mundo –,

e ao mesmo tempo, como foi possível termos deixado medrar, mesmo aqui ao lado, um urso que julgávamos em hibernação, mas apenas simulava dormir e na sombra escura da sua caverna se armava até aos dentes, arquitetando
planos e projetos hegemónicos e imperialistas de novas guerras, de alargar fronteiras ao arrepio do direito internacional, violando soberanias, anexando territórios como nos piores momentos da História, destruindo e dizimando países e povos inteiros, enquanto troçava dos nossos sonhos de paz, sonhos de gente fraca e acomodada. Assim pensa o urso. Teremos sido demasiado otimistas ou demasiado ingénuos? Ou ambos?

Há três meses quem ousasse perguntar-me se eu era a favor da NATO, ver-me subir de tom e vituperar contra todos esses milhões que o Luxemburgo, Portugal, e a Europa em geral, gastam em armamento militar para a NATO, e criticaria duramente a indústria europeia do armamento, e discursaria idealista sobre uma Europa madura da paz de Schuman, Monet, Adenauer, que deve desinvestir no belicismo e focar-se antes na missão de espalhar, pelo exemplo,
os ideais europeus de cooperação e paz por cada vez mais povos e nações. Até para além do Mediterrâneo, até à Turquia ou mesmo para além do Oural, porque não?

E eu acreditava mesmo nisto. Porque a Europa não é um nome, não é uma religião, não é uma língua, nem sequer apenas um continente. A Europa em que eu acredito é um valor maior, algo que alcançámos arduamente, primeiro a seis, depois a doze, hoje a 27: são os princípios e os ideais de cooperação mútua, entreajuda, solidariedade, entendimento, paz entre cada vez mais povos e nações, que nos permitem criar um chão fértil para pensarmos e construirmos juntos um mundo em que as vitórias são comuns e se alcançam através da cooperação e não através do conflito e da guerra. Porque há muito mais em comum que nos aproxima a todos do que diferenças que nos separam.

O URSO LOUCO E OS ORQUES FAMINTOS

A nossa luta hoje é nesse terreno que a temos de combater, no terreno dos princípios e dos ideais, contra uma visão radicalmente oposta da nossa de ver e querer construir o mundo e a relação entre nações, uma “Weltanschauung” como lhe chamou Kant, uma visão do mundo, de outros tempos.

A nossa luta hoje é contra um urso sedento de sangue que não quer ouvir nada nem ninguém, que só escuta as veleidades da sua própria loucura imperialista, que em vez de cooperar, ataca, agride, massacra; que em vez de colaborar, oprime e mata; que prefere dissimular, mentir e manipular do que negociar; para quem a diplomacia é a arma dos fracos, e a força e a violência bruta a única linguagem.

Este é assim mais do que um combate contra uma abantesma, uma monstruosidade que dirige o país mais vasto do mundo, e isso parece não lhe chegar, esse tirano sanguinário, rodeado por uma corja de orques famintos, que já não está na sua primeira investida contra os vizinhos, que já dizimou e massacrou milhares na Chéchénia, roubou territórios à Geórgia, massacrando milhares de civis, roubou terras à Moldávia, oprime e tortura o seu próprio povo. Esta é uma luta contra as trevas, contra o jugo de quem quer expandir esse modelo de caos e opressão pelo resto do continente.

Trinta anos após a queda do muro de Berlim, eu ainda era contra a NATO. Hoje considero-a um mal necessário, uma mão armada que tem de ser verdadeira e somente defensiva, pelo menos enquanto houver ditadores, tiranos, déspotas e todo o tipo de dirigentes loucos com poder de fogo suficiente para porem em perigo todo o planeta, varrendo num gesto o que milhares de cidadãos, dezenas de nações andam a tentar construir há décadas, a paz, uma paz perene, algo que parecia impossível entre nações até há bem poucas gerações.

Nestes tempos conturbados em que vivemos, almejo pela paz, que não é um dado adquirido na Europa, como eu pensava até há cerca de três meses. Foi a lição mais dura destes últimos tempos. A famosa locução latina atribuída a
Flávio Vegécio diz: “Se queres a paz, prepara a guerra”. Só hoje percebo esse adágio. Mas não esqueço Ésquilo, que na sua sabedoria, faz dizer a Agamemnon: “Quem vive pela espada, perecerá pela espada”.

JLC16052022

Euro vision et l’ours affamé

Ces mots résonnent encore en moi : “Luxembourg, douze points !”. À cette époque, le Portugal ne recevait jamais douze points, le Luxembourg collectionnait déjà les victoires. C’était une époque où une portugaise (Marie Myriam, 1977) gagnait pour la France, lors d’une autre édition une française (Corinne Hermès, 1983) gagnait pour le Luxembourg, une canadienne (Céline Dion, 1988) ramenait le trophée en Suisse, la même année une italo-belge (Lara Fabian) représentait le Grand-Duché.

Pour moi, l’Eurovision c’était tout ça. Un festival entre nations où les frontières

-qui serait un jour abolies par un accord signé dans un village isolé sur les coteaux viticoles du sud-est du Luxembourg –
n’existait déjà plus sur cette scène. Il n’y avait de place que pour des chants, des danses et une collaboration festive et télévisée au sein d’une union entre européens qui n’assumait pas encore son nom.

Mais c’était bien plus que cela, car des pays qui ne font même pas partie de l’Europe, comme Israël ou le Maroc, étaient déjà acceptés à se joindre à la fête. Et si cela semblait bizarre à l’époque, aujourd’hui personne ne trouve étrange de voir l’Australie sur la scène de l’Eurofestival. Et on ne peut comprendre que les “aussies” fassent partie de notre euro-fête que si l’on comprend que l’Eurovision n’est pas seulement une fête populaire européenne

-fête populaire dans le sens le plus noble du mot, parce qu’étant populaire et accessible, il plaît à des gens de toutes les franges de la population, et véhicule en même temps la culture et favorise la compréhension entre les peuples et les nations –

une fête populaire européenne, disais-je, qui est l’un des divertissements télévisés les plus regardés non seulement en Australie, mais aussi dans le monde entier, de l’Amérique latine au Japon, des États-Unis à l’Afrique, il y a des foules de fans inconditionnels qui suivent religieusement l’Eurofestival de la chanson chaque année. L’Eurovision est ainsi devenue une mondovision.

L’Eurovision, née la même année que l’Union européenne (d’abord CECA, puis CEE), a été créée dans le même but, au fait : promouvoir la paix et la coopération entre les pays européens au lendemain de la Seconde Guerre mondiale, et être le prolongement festif de cette coopération, d’abord économique, puis politique, entre les nations, afin qu’un nouveau conflit sur le continent européen devienne “non seulement impensable, mais matériellement impossible”, comme on peut le lire dans le discours fondateur de l’UE prononcé le 9 mai 1950 par Robert Schuman, ministre français des Affaires étrangères, né dans le quartier de Clausen, à Luxembourg-ville.

La semaine dernière, c’est donc avec un optimisme renouvelé que j’ai vu une nouvelle fois 40 pays d’Europe se disputer le micro de cristal, dans une compétition joyeuse et saine, dans une fête qui a animé non seulement la “green room” du Pala Olimpico de Turin, mais aussi tous les fans de l’Eurovision, de Lisbonne à Kiev, de Reykjavik à Bakou.

Sans vouloir vous avouer que je suis en fait un fédéraliste européen convaincu, ma joie de l’Eurovision a été entachée cette année par un goût amer et âcre qui a gâché cette fête pour moi. Car il y a une question qui me tourmente et me consume depuis près de trois mois : comment est-il possible que nous ayons réalisé l’impossible rêve européen –

un espace de paix et de coopération qui n’est pas parfait, bien sûr, parce qu’il a encore beaucoup de choses à ajuster, en particulier le rapprochement avec ses citoyens et des politiques sociales communes plus justes et plus équilibrées entre les États membres, qui a connu des moments difficiles, des reculs, des pauses forcées, mais heureusement aussi des progrès en un continent qui a connu des guerres successives entre pays voisins pendant des siècles, un espace qui évolue, grandit et gagne de plus en plus de membres qui partagent le même rêve supranational, ce qui est encore inégalé dans le reste du monde –,

et, en même temps, comment avons-nous pu laisser grandir, juste à côté, un ours que nous pensions en hibernation, mais qui ne faisait que faire semblant de dormir et qui, dans l’ombre de sa caverne, s’armait jusqu’aux dents, élaborait des plans et des projets hégémoniques et impérialistes pour de nouvelles guerres, pour l’élargissement des frontières en violation du droit international, violait les souverainetés, annexait des territoires comme dans les pires moments de l’histoire, détruisait et décimait des pays et des peuples entiers, tout en se moquant de nos rêves de paix, les rêves de peuples faibles et complaisants. C’est ainsi que pense l’ours. Avons-nous été trop optimistes ou trop naïfs ? Ou les deux ?

Il y a trois mois, quiconque aurait osé me demander si j’étais favorable à l’OTAN m’aurait vu hausser le ton et vitupérer contre tous ces millions que le Luxembourg, le Portugal et l’Europe en général dépensent en armements militaires pour l’OTAN, et j’aurais sévèrement critiqué l’industrie européenne de l’armement, et tenu des discours idéalistes sur une Europe mûre de la paix, l’Europe de Schuman, de Monet et d’Adenauer, qui doit désinvestir dans le bellicisme et se concentrer sur la mission de diffuser, par l’exemple, les idéaux européens de coopération et de paix à un nombre croissant de peuples et de nations. Même au-delà de la Méditerranée, jusqu’en Turquie, ou même au-delà de l’Oural, pourquoi pas ?

Et j’y croyais vraiment. Parce que l’Europe n’est pas un nom, pas une religion, pas une langue, ni même un simple continent. L’Europe en laquelle je crois est une valeur plus grande, une valeur pour laquelle nous avons travaillé dur, d’abord à six, puis à douze, aujourd’hui à vingt- sept : ce sont les principes et les idéaux de coopération mutuelle, d’entraide, de solidarité, de compréhension, de paix entre des peuples et des nations de plus en plus nombreux, qui nous permettent de créer un terrain fertile pour penser et construire ensemble un monde où les victoires sont communes et sont obtenues par la coopération et non par le conflit et la guerre.

Parce qu’il y a beaucoup plus de choses en commun qui nous rassemblent que de différences qui nous séparent.

L’OURS FOU ET LES ORCS AFFAMÉS

C’est sur ce terrain que nous devons nous battre aujourd’hui, celui des principes et des idéaux, contre une vision radicalement opposée à la nôtre de voir et de vouloir construire le monde et les rapports entre les nations, une “Weltanschauung” comme l’a appelé Kant, une vision du monde d’un autre temps.

Notre combat aujourd’hui est contre un ours sanguinaire qui ne veut écouter rien ni personne, qui n’écoute que les caprices de sa propre folie impérialiste, qui au lieu de coopérer, attaque, agresse, massacre ; qui au lieu de coopérer, opprime et tue ; qui préfère dissimuler, mentir et manipuler plutôt que négocier ; pour qui la diplomatie est l’arme des
faibles, et la force et la violence brute le seul langage.

C’est donc plus qu’un combat contre un abîme, une monstruosité qui dirige le plus grand pays du monde, et cela ne semble pas lui suffire, ce tyran sanguinaire, entouré d’une bande d’orcs affamés, qui n’en est plus à sa première incursion contre ses voisins, qui a déjà décimé et massacré des milliers de personnes en Tchétchénie, volé des territoires à la Géorgie, où il a massacré des milliers de civils, volé des terres à la Moldavie, opprime et torture son propre peuple. C’est un combat contre les ténèbres, contre le joug de ceux qui veulent étendre ce modèle de chaos et d’oppression au reste du continent.

Trente ans après la chute du mur de Berlin, j’étais toujours contre l’OTAN. Aujourd’hui, je la considère comme un mal nécessaire, une main armée qui doit être réellement et uniquement défensive, du moins tant qu’il existe des dictateurs, des tyrans, des despotes et toutes sortes de dirigeants fous disposant d’une puissance de feu suffisante pour mettre en danger la planète entière, anéantissant d’un seul geste ce que des milliers de citoyens et des dizaines de nations tentent de construire depuis des décennies, la paix, une paix pérenne, ce qui semblait impossible entre les nations il y a encore quelques générations.

En ces temps troubles où nous vivons, j’aspire à la paix, qui n’est pas acquise en Europe, comme je le pensais jusqu’à il y a environ trois mois. C’est la leçon la plus dure de ces derniers temps. La célèbre locution latine attribuée à Flavius Végèce dit : “Si tu veux la paix, prépare la guerre”. Ce n’est qu’aujourd’hui que je comprends cet adage. Mais je n’oublie pas Eschyle qui, dans sa sagesse, fait dire à Agamemnon: “Celui qui vit par l’épée, périra par l’épée”.

JLC16052022

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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