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Do machismozinho latente e da minha pouca pachorra para o aturar

Há coisa de uma semana, anunciei que ia fazer um Curso de Cultura Musical. Fiz um site, gravei um vídeo, pensei no que queria fazer e como, e lancei a minha proposta.

Tive logo uma boa reacção, que me deixou muito feliz. Como vinha do meu círculo de amigos (do mais estreito ao mais alargado), pensei que seria boa ideia publicitar o curso noutros meios que não o meu, e cedi à tentação de pagar um anúncio no Facebook. Catorze euros por uma semana de anúncio pareceu-me um bom negócio.

Desde então, a página de Facebook do Curso de Cultura Musical tem sido visitada por pessoas que nunca me viram mais gorda. E se bem que me tenha trazido maioritariamente coisas boas, trouxe também, inevitavelmente, exemplares de uma espécie que eu julgava já ter deixado para trás desde os meus tempos de faculdade (e do ano curricular do doutoramento, vá): o Pequenino Senhor Doutor.

O Pequenino Senhor Doutor é um homem, com ou sem qualificações (isso das qualificações não lhe interessa nada), que fica com urticária quando vê uma mulher falar do que sabe, ou por outra, uma mulher a saber de um assunto qualquer.

É que faz muita comichão ver uma mulher maquilhada, sorridente, de bem com a vida, que ele até julga nova, a falar de temas complexos, do século XVIII, de leis harmónicas, de História ou de Filosofia. Isto é demais para o Pequenino Senhor Doutor, que logo se abespinha e se põe em bicos de pés a dizer que o termo está mal empregue, que o período histórico está errado, que a mulher (que sou eu) não tem com certeza um doutoramento (era o que faltava), que assim não vou longe e não serei respeitada pela comunidade científica, ou que o termo certo para mim, senhora investigadora, não é musicóloga, é melómana.

Ora, justamente uma das razões que me fez começar a gravar vídeos (mas não a única), foi dar-me conta da pouca visibilidade mediática que as mulheres têm, no campo da musicologia, perante o público em geral. Uma enorme parte (estou em crer que bem mais de metade) da musicologia que é feita hoje em dia em Portugal, pelo menos na minha área, é feita por mulheres; no entanto, para uma pessoa fora do meio académico, possivelmente se lhe perguntarem quem é que conhece que saiba falar sobre música, pensará num homem.

É mais do que tempo de as mulheres reclamarem um espaço público como seres pensantes, em todas as áreas, e eu quis fazer isso na minha. Sei de barato que a minha imagem é algo diferente do que se esperaria de um(!) musicólogo(!) e achei que também por isso era interessante fazer os vídeos.

E é claro que já imaginava que ia encontrar gente a quem tudo isso faz comichão.

Os Pequeninos Senhores Doutores que se incomodam muito comigo (e me entopem a página e o Messenger com comentários palermas), são homens que dão uns toques na viola, improvisam umas coisas ao piano, ou até estudam música – acabaram agora a licenciatura e têm idade para serem meus alunos.

É claro que se eu fosse um homem barrigudo ou uma mulher de meia idade (estou lá quase, mas eles julgam que não), estava tudo calado.

Uma amiga minha, brasileira, costuma dizer: “Meu Deus, dai-me a autoconfiança de um homem branco medíocre”. Pois é.

Darlings, eu tenho 45 anos e uma história de vida que se começar a falar não me calo. Vou continuar a fazer vídeos e a carregar no batom. E a pensar pela minha cabeça, e a falar de História e de Música e do que mais me apetecer e eu souber.

E só por causa das coisas, um dia destes faço um destes vídeos de música em látex e salto agulha.

Irra.

Inês Thomas Almeida

(Na foto, eu no dia em que acabei de escrever a tese, um calhamaço de 599 páginas de Musicologia Histórica sobre Portugal e a Alemanha no fim do século XVIII, com um vestido de noite que pus para comemorar a data, mesmo estando eu em casa sozinha com os miúdos sem ir a parte alguma)

 

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