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De machões estou eu fartinha

Não sei se já repararam no fenómeno urbano, que infelizmente é sintomático de tantos outros, e que é o machão da sauna.

Não repararam? Eu já.

Começo por explicar que adoro sauna. Aprendi na Alemanha a gostar da sauna seca, ou finlandesa, em que estamos cinco, dez ou quinze minutos numa cabana de madeira com pedras aquecidas, a suar por poros que nem sabíamos que existiam, e depois vamos a correr rebolar para a neve ou, à falta de melhor, tomar um duche de água gelada. Faz maravilhas à circulação, e eu diria que à alma. Uma boa sessão de sauna conta a seguir com esticar-se num cadeirão a ler um bom livro, relaxar, e recomeçar tudo outra vez.

A sauna faz parte de um ritual de bem-estar, é algo de relaxante, que fazemos para nós próprios. Um momento típico de “me time”.

Ora, no ginásio que frequento há uma sauna (foi aliás uma das razões pelas quais o escolhi), e depois de treinar não há melhor complemento do que este relax.

Só que muitas vezes é interrompido pelo machão da sauna.

A ver se nos entendemos: há evidentemente homens e mulheres bem e mal-educados. E na sauna, a maior parte das pessoas é bem educada. É da praxe dizer bom dia ou boa tarde quando se entra, por exemplo. Se eu já lá estou, é comum a pessoa que acaba de entrar perguntar-me se me incomodo que ponha mais água por cima das pedras. Claro que não, ponha à vontade. As pessoas, regra geral, estão em silêncio, pode haver uma ou outra conversa casual mas se houver mais gente ali, têm o cuidado de não impor a sua conversa ao próximo.

Entre as pessoas que cumprem estas regras básicas de educação e convivência num meio público, estão é claro homens e mulheres.

Mas quando há prevaricadores, são sempre homens. Sempre. Pelo menos, na minha experiência, que já vai longa.

O fulano que entra e põe água a cada minuto e meio, sem perguntar se pode ou não, se incomoda ou não – é um homem.

O fulano que vai logo despejando gotas e gotas de óleos disto e daquilo para cima das pedras, sem querer minimamente saber se as outras pessoas querem ou não, ou se alguém é até alérgico ao cheiro de hortelã /canela /patchouli e o raio que o parta com que empestam o ar de toda a cabine – é um homem.

O fulano que se põe a fazer ginástica dentro da sauna, gemendo e saltando, fazendo as bancadas abanar – é um homem.

Os fulanos que se põem a falar altíssimo das suas aventuras, muitas delas brejeiras, cheias de machismos e duplos sentidos, para toda a gente (ou talvez só eu) ouvir – são homens.

Admito que todos estes comportamentos sejam potenciados pelo facto de eu ser uma mulher. Uma mulher sozinha, que ali está sentada na sauna. Os comportamentos não se verificam, por exemplo, se ali dentro estiver um outro homem espadaúdo.

Mas eu, mulher, que ali estou sossegada, se estiver sozinha apanho com isto constantemente.

O machão da sauna julga que é o rei disto tudo. Na sauna e possivelmente fora dela. Acredita que a sua vontade é superior à de qualquer outra pessoa, pelo menos é com certeza superior à de uma mulher.

Quero isto, é assim e pronto. Vou e pego. Havia de ser de outra maneira porquê?

Eu, enfim, tento manter a calma, vou contando até 100 devagarinho, quando chego ao fim conto de trás para a frente, tentando que o meu momento não fique estragado pela necessidade desesperante do machão da sauna em mostrar a sua testosterona toda.

Mas hoje, calhou-me um cromo diferente, que nunca tinha apanhado na minha colecção.

Também calhou eu estar fartinha até às orelhas de uma série de coisas e eu estar sem pachorra nenhuma para machão de espécie alguma.

Depois do treino, vesti o bikini e fui para o meu momento relax.

Mal me aproximei da sauna, vi que havia uma barulheira em todo o recinto: havia um fulano dentro da sauna, encostado à porta, com o telemóvel do lado de fora, de onde saía a altos berros música brasileira.

Eu entrei, disse boa tarde, e o fulano começou logo mal: amor, olha que tá quente!

Pensei, pois claro que está quente, pois se não estivesse, para que é que eu vinha? Paternalismos dispenso.

Estiquei a toalha e sentei-me. O homem aos berros a cantar a música aos berros, é claro que o facto de eu ali estar não lhe fazia diferença nenhuma. Ainda se fosse um marmanjo maior do que ele? Mas uma mulher, ora. Continua o berreiro.

Comecei a contar até cem. O homem guincha e desafina, bate com os pés no chão, discoteca geral.

E nesse momento dá-me uma coisa. É a vontade de tirar direitos às mulheres, de as tornar invisíveis, de lhes impingirem que têm de sofrer, ser abnegadas, tratar da casa, dos filhos, dos empregos, serem óptimas em tudo, super-mulher, super-mãe, cuidar de tudo, ter compaixão com tudo, fazer delas todas as lutas, força!, e sorriso nos lábios.

O homem guincha, sonho meeeeeu, sonho meeeeeu, ainda para mais num tom perfeitamente diferente ao que sai do raio do telemóvel.

Começo a cantar a Habanera a plenos pulmões.

Ópera. Carmen de Bizet. Os meus anos de cantora todos ao de cima. L’AMOUR EST UN OISEAUX REBELLE

O homem fica primeiro divertido, opa, gosta de cantar, hem?

E eu L’AMOUR EST ENFANT DE BOHÈME

A música do telemóvel nem se ouve.

SI TU NE M’AIMES PAS JE T’AIME

O homem já não bate com os pés.

PRENDS GAAAAAARDE À TOI

Às tantas, diz-me: pô, assim não consigo ouvir a música

Ao que eu disparo, e dou-me conta de que já estou há anos para dizer isto: Se você pode estar aqui com a sua música aos berros a incomodar as outras pessoas, eu também posso.

O fulano sai, resmunga qualquer coisa entre dentes. Eu fico ali mais três minutos, estendida a gozar o calor que sai das pedras, sem música sem óleos essenciais sem barulho sem machão sem nada.

Por isso, se algum dia ouvirem uma história de uma fulana que andou a infernizar uma sauna a cantar ópera, sou eu e é tudo verdade.

E vou já avisando que a partir de aqui vou fazer isto sempre que for necessário.

Cavalheiros: menos, por favor.

(A inspiração foi a Aline Gallasch-Hall DB, que há uns anos no comboio para Cascais, perante um fulano que entrou com rap aos berros para toda a carruagem ouvir, se sentou ao lado dele, abriu o laptop e pôs a Cavalgada das Valquirias aos guinchos até ao fulano perceber).

No pasarán.

Ines Thomas Almeida

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