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Contestar a invasão russa da Ucrânia como ato de liberdade

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É muito difícil nos dias de hoje, mais de cinco meses depois dos exércitos da Federação Russa terem invadido a Ucrânia, haver quem não esteja sumamente furioso, indignado e revoltado com Vladimir Putin, o principal responsável pela guerra insana e sem qualquer justificação que já fez milhares de vítimas, causou uma imensa destruição, milhões de refugiados e mudou a geopolítica. Esta é, como muitos observadores dizem, a guerra de Putin.

Pelos quatro cantos do mundo há todo o tipo de manifestações de oposição à guerra, que procuram chamar a atenção para uma tragédia que não pode deixar ninguém indiferente. Condenar a invasão da Ucrânia e a desumanidade de Putin é uma importante ação cívica e um contributo para que se alcance a paz o mais rapidamente possível.

Por isso, se as representações diplomáticas da Federação Russa seguissem o exemplo da embaixada em Lisboa, que decidiu mostrar o seu desagrado pela contestação à guerra que Pedro Abrunhosa fez num concerto em Águeda, então não haveria papel que chegasse para tantos comunicados nem advogados para defender a indefensável posição russa. O mundo está mesmo indignado com a guerra e com os seus responsáveis e, felizmente, que a liberdade existe para lá das fronteiras da Rússia.

Pedro Abrunhosa não fez mais do que, à sua maneira, fazer uso dos direitos e garantias que estão consagrados na Constituição da República Portuguesa, com a liberdade que sempre caracteriza os artistas, num espírito idêntico ao dos grandes concertos musicais para contestar, por exemplo, a guerra no Vietname ou quando em Portugal, a seguir ao 25 de abril, se cantava para consolidar a democracia e a luta pela paz, pão e liberdade. Abrunhosa, merece, por isso, solidariedade, tal como ela foi manifestada por um grupo de deputados do PS na Comissão dos Negócios Estrangeiros, como fez o ministério dos Negócios Estrangeiros e muitas outras vozes de todos os quadrantes, particularmente do mundo artístico.

A questão é que a posição insensata da representação diplomática da Federação Russa em Lisboa e a ameaça ridícula de processar o cantar podem facilmente ser interpretadas como uma forma de calar as críticas à guerra. Mas Portugal não pode ser confundido com a Rússia, onde o regime é muito ativo a silenciar toda a oposição. Estamos em Portugal, que lutou durante muitas décadas para acabar com a ditadura e conseguir a liberdade, a democracia e o respeito pelos direitos fundamentais.

Se alguém tem razão para estar indignado somos todos nós, pela guerra desumana e injustificada, pelos milhares de mortos, pela destruição cega de cidades inteiras, pelos milhões de deslocados internos e externos, pelos desaparecidos, pelos traumatizados, pela imensa dor e sofrimento, pelos aumentos nos preços da energia e na escassez de alimentos e pela fome que está a causar noutros continentes. Não, não é tolerável que a embaixada russa venha fazer ameaças, porque, neste contexto, ameaçar um português é ameaçar todo um povo. E, diga-se em abono da verdade, que dizer “Putin go f… yourself” é muito menos grave do que chamar-lhe assassino, como muitos têm feito publicamente, e muito menos grave do que as acusações de criminoso de guerra.

Compreende-se que as representações diplomáticas estrangeiras façam tudo para defender a imagem do seu país, mas neste caso em particular da invasão da Ucrânia e da imensa tragédia a que quotidianamente assistimos não há ação, reação ou argumentos que possam vir em socorro da defesa da honra supostamente ofendida da Federação Russa.

Deputado do PS

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