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Alberto: E tudo o casino levou…(Conclusão)

Russel Brand diz, “A mentalidade e comportamento de viciados em drogas, álcool e jogo é totalmente irracional até que as pessoas entendam que eles são completamente impotentes sobre o seu vicio e, a menos que tenham ajuda estruturada, estão desprovidos de qualquer esperança.”

Passam das quatro da madrugada e Alberto fuma um cigarro no patamar da entrada do casino. Por de trás de si, o porteiro impecavelmente bem vestido com a farda de concierge do casino, tão sereno e discreto quanto a noite, parece, mesmo de corpo presente, tão distante que quase se lhe não nota a presença, mas no entanto, lá está, sempre atento com olhos de lince a qualquer movimento da porta que lhe faz despoletar uma vénia ligeira, uma boa noite com classe, estudada e escrutinada para assentar como uma luva no trabalho que desempenha.

A noite começa a ganhar tons de um cinzento quase azulado à medida que vai perdendo aquela escuridão negra, como se o dia que se aproxima fizesse desbotar uma cortina de uma luz envergonhada a cair do céu à medida que lentamente se vai espalhando pela cidade que suavemente despertará.

De cada vez que Alberto mete o cigarro à boca, puxando com uma sofreguidão que nem sequer lhe advém da vontade e do vício de fumar, é como se inalasse juntamente com o fumo, uma espécie de raiva desespero e ódio, pela sua total incapacidade de controlar os impulsos de um vício que o domina por completo.

Essa raiva e esse desespero, esse ódio e essa impotência irão percorrer todos os nervos do seu corpo, irão fazer estremecer esse mesmo corpo em ebulição para depois explodirem no seu cérebro, cavando uma pazada a mais na sua vida de miséria disfarçada. Do fumo inalado, uma parte espalhar-se-á pelos pulmões, quem sabe, alimentando um possível cancro, e a outra parte será expulsa entre a boca e o nariz misturando-se com o crepúsculo da noite espalhando à sua volta um bafo de whisky tabaco e sabor amargo a derrota.

Foi uma noite medonha.

Alberto entrou no casino com cerca de mil libras no bolso um palpitar no coração que se estendia a uma espécie de formigueiro na barriga, as faces rubras, e a um canto do seu cérebro uma amálgama de pensamentos e sensações que como a esfera de uma maquina de flippers ao bater nos para-choques em forma de anéis sai disparada em qualquer direção.

As quase mil libras que levava no bolso, a imagem da mesa de poker na sua mente, as cores das fichas que representam dinheiro, a possibilidade de multiplicar esse dinheiro, ou com um pouco mais de sorte quem sabe, triplicar, eram estímulos que alimentavam uma compulsão traduzida numa enorme pressa e vontade de entrar no casino. E aquele sentimento que moía dentro de si, que fervilhava bem lá do fundo das suas entranhas num saber, numa consciência do que estava a fazer e que a todo custo queria ignorar, eram sinais de uma obsessão incontrolável de quem mesmo sabendo que não pode, não deve, é incapaz de dizer não, e de tomar uma atitude sensata, percebendo de uma vez por todas que, se em três ou quatro tentativas de sair o numero 19, saiu o 25 o 42 o 58, muito provavelmente na próxima tentativa continuará a não sair o 19. Mas Alberto é simplesmente um viciado no jogo. Não tão simplesmente quanto isso, na verdade.

Entre alguns sucessos ao jogo durante a noite, sucessos esses que mediante uma enorme tensão, stress e excitação, lhe provocaram um prazer, um êxtase que o dinheiro que aumentava e diminuía no decorrer da noite lhe foi proporcionando, e os fracassos, a procura constante em sentir essas sensações de êxtase e de prazer, levaram-no a arriscar cada vez mais acreditando por vezes que a cada fracasso as hipóteses de sucesso aumentavam na próxima jogada. E não aumentam nada Alberto. Qualquer vicio é um obsessão. Russel Brand diz, “A mentalidade e comportamento de viciados em drogas, álcool e jogo é totalmente irracional até que as pessoas entendam que eles são completamente impotentes sobre o seu vício e, a menos que tenham ajuda estruturada, estão desprovidos de qualquer esperança.”

Ajuda estruturada Alberto. A resolução do teu problema começa a ganhar contornos de esperança no dia em que disseres em voz alta, “preciso de ajuda”.

Alberto, assim que acabado o seu cigarro, vai embora de bolsos vazios, de coração vazio, e cheio de raiva, ódio e desespero, contra si mesmo. Que mais terá Alberto que perder, além de grande parte do ordenado, a família, os amigos e os sucessivos empregos? Ele que até tem uma formação escolar alta, qualidades de um excelente cozinheiro, é esta pedra no sapato que não o deixa caminhar mais longe.

Dá o primeiro passo Alberto. Admite que precisas de ajuda estruturada…

Nota do autor

Muitas vezes os sorrisos, a aparente alegria e boa disposição nas pessoas, são como as paredes de uma casa e os telhados. Encobrem muita coisa. O objetivo desta Crónicas da vida real é o de falar de pessoas que se movimentam no meio de todos nós, sendo que todos nós somos pessoas com o mais variado tipo de problemas que muitas vezes não são visíveis ao resto dos nossos comuns, encobertos pelos mais variados motivos e razões, por sorrisos forçados, lágrimas que se apagam à socapa, e gritos que se engolem para que expludam dentro de nós mesmos sem muito alarido. Crónicas da vida real é baseado em pessoas e factos verídicos, apenas com nomes fictícios, para que se não quebre o anonimato e o direito à privacidade de cada um. Crónicas da vida real fala de temas como a toxicodependência e as suas nefastas consequências, o vício das mais variadas formas de jogo, o ciúme doentio, a violência doméstica, a solidão de envelhecer sozinho e abandonado, a morte, etc. etc. Tudo temas com pouco interesse nos dias de hoje, onde os hábitos de leitura mudaram tanto. Mesmo assim, porque sou e sempre fui muito teimoso, enquanto me publicarem, eu escrevo…