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A direita inquisitorial

Quando se perde a bússola ética na política, é inevitável que a primeira vítima seja a qualidade da democracia e os direitos e garantias dos cidadãos. A vontade de chegar ao poder não pode justificar tudo.

Por mais preocupantes que sejam os tempos de pandemia que vivemos e mais sérias as exigências em cuidados sanitários, nada justifica as atitudes inquisitórias dos partidos da direita, nem que os direitos políticos sejam diminuídos. Em contrapartida, parece inevitável que se reforce o sentido da responsabilidade individual e coletiva para ajudar a combater a transmissão do vírus.

Na realidade, os excessos condenatórios dos partidos de direita ao PCP pela sua decisão de realizar o congresso vão muito para além das aparências e têm outros objetivos e implicações. A sua principal preocupação não será tanto a realização do congresso, mas sim atingir o primeiro-ministro, António Costa. Já quanto às implicações, este criticismo a pretexto do combate à covid-19 mais não faz do que acentuar uma radicalização dos partidos e um enfraquecimento dos valores democráticos, por se pretender limitar a liberdade de um partido realizar os eventos que entende.

Apesar de ninguém estar livre do azar de apanhar e transmitir o vírus, a verdade é que todos reconhecem a disciplina dos comunistas e a sua capacidade para organizar eventos no respeito escrupuloso das regras necessárias para evitar problemas de saúde pública, como fica demonstrado pela forma irrepreensível como decorreu a Festa do Avante!, inclusivamente reconhecida pelos partidos de direita.

Ao censurarem o PCP por não adiar o seu congresso, ao mesmo tempo que criticam o Governo por não impedir a sua realização, estão a tentar gerar descontentamento popular, que é o principal objetivo, alegando um tratamento desigual para os partidos políticos, que são beneficiados em detrimento das pessoas, obrigadas e ficar em casa devido ao recolhimento obrigatório. Mas esquecem-se que o Chega realizou em finais de setembro a sua convenção com poucas preocupações sanitárias, sem que ninguém tivesse procurado impedir a sua realização.

Não é aceitável que seja um Governo a condicionar as ações de outros partidos políticos, quando estão devidamente enquadradas e justificadas pela lei e pela Constituição da República. Trata-se, portanto, de um moralismo hipócrita, amplificado pela radicalização crescente dos partidos de direita, que apenas contribui para criar mais confusão sobre o que se deve ou não fazer em tempos de incerteza e de crise sanitária.

Esperemos que não sigam a escola dos governos iliberais, que em alguns países europeus têm revelado a sua apetência para limitar direitos e liberdades, revelando uma crescente intolerância e sectarismo, que são sinais preocupantes da degradação dos valores democráticos.

O pior de tudo, é que, muito particularmente o PSD e o CDS, estão a ser arrastados pela retórica inflamada e manipuladora do Chega, que não poupa nas provocações, nas ofensas e em semear a desconfiança e a discórdia, desprezando os valores e princípios que estruturam a convivência em sociedade.

Seria de grande utilidade, aliás, que Rui Rio seguisse o exemplo da chanceler Angela Merkel, que fez abortar uma solução de poder na Turíngia, com o argumento moral de que o seu partido, a CDU, não poderia ultrapassar a linha vermelha de viabilizar um governo com o partido de extrema-direita AfD, marcado pelas suas posições xenófobas, anti-imigração, antieuropeias e com inspiração do nacional-socialismo nazi.

Quando se perde a bússola ética na política, é inevitável que a primeira vítima seja a qualidade da democracia e os direitos e garantias dos cidadãos. A vontade de chegar ao poder não pode justificar tudo, sendo certo que aquilo que se ganha no curto prazo pode muito bem perder-se em maior dimensão no médio prazo, que é o que poderá acontecer ao PSD por causa do acordo que fez com o Chega nos Açores para assegurar a formação do Governo, dando respeitabilidade a um partido que não merece consideração nenhuma.

Não pode haver ilusões. O Chega é uma perversão da nossa democracia, que só vive da capacidade retórica de manipular do seu líder e representa um retrocesso civilizacional, com posições que envergonham a nossa identidade humanista. Por isso, esperemos que se trate apenas de um fenómeno passageiro, fruto das crises de diversa natureza que têm dado fôlego aos populismos e nacionalismos primários e do poder incendiário das redes sociais.

Todo este alarido em torno do congresso do PCP, revela, acima de tudo, a desorientação dos partidos de direita, mas também uma intolerância crescente na sociedade portuguesa e um aumento das tensões e divisões, que em nada ajudam a tranquilizar as pessoas nem a enfrentar melhor a complexidade e as dificuldades causadas pelas consequências da pandemia. Cabe-nos a todos contribuir para que a força dos valores da moderação e do humanismo prevaleçam sobre a ilusão e os perigos dos extremismos.

 

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