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Opinião

Vicência Brêtas Tahan: filha e biógrafa de Cora Coralina

Filha caçula e biógrafa da escritora Cora Coralina, Vicência Brêtas Tahan acaba de lançar seu primeiro romance, A roda da vida, no qual Rosalva, a protagonista, num gesto de humanitário raro, segue para a África, a fim de cuidar de vítimas do ebola, enfrentando desafios intensos, com firmeza incomum.

Autora de Cora coragem Cora poesia, que desde o lançamento, em 1989, vem ganhando sucessivas edições, Vicência relembra, na entrevista a seguir, um pouco da trajetória daquela a quem Carlos Drummond de Andrade chamou de “mulher extraordinária, diamante goiano cintilado na solidão”.

Como explicar o interesse cada vez mais crescente pela vida e obra de Cora Coralina?

“Escrevo para gerações que hão de vir”. Esta frase ela disse ao lançar seu segundo livro. Hoje há mais aceitação para a poesia do cotidiano, de assunto concreto. O abstrato era que alimentava o cotidiano dos antigos poetas.

A que atribui o vínculo prematuro de Cora com as letras, que escreveu seus primeiros poemas aos 14 anos, não obstante ter passado apenas pela escola primária, assim como, paradoxalmente, a sua estreia em livro somente aos 76 anos?

Ao aprender a ler e escrever, ela pode ver que o mundo era muito mais que a pequena cidade onde nasceu e vivia. Sua inteligência e percepção natas alavancaram suas descobertas e o único instrumento que tinha era a escrita, mesmo sabendo e sentindo na pele a falta de estímulo vigente. Meninas eram criadas para ser boas donas de casa, para servir ao “senhor seu marido”, para ter filhos. Quem escrevia era diminuída, desprezada perante os costumes da época. Ela soube esperar, sem nunca parar de escrever e guardar os seus escritos.

Cora, a seu modo, terá sido uma das precursoras do movimento feminista no país?

Não creio que houvesse nela o espírito do movimento feminista. Isto veio muito depois. Ela apenas escrevia. Dizia: “a poesia nasceu comigo, eu não a procurei”.

Concorda com o crítico Oswaldino Marques, para quem em “Cora Coralina existir é uma maneira de resistir, coexistir, transmitir”?

Concordo sim com o Oswaldino Marques. Ele conheceu muito bem minha mãe e seus poemas e também as dificuldades que ela tinha para editá-los. E foi muito importante ao incentivá-la a juntá-los e a procurar um editor em São Paulo. Foi ele quem deu à minha mãe uma máquina de escrever e ela, então, entrou numa escola de datilografia, onde havia somente jovens. Mas ela não se intimidou com esse fato e logo foi considerada uma colega por seus jovens companheiros de turma. Seus colegas ficavam admirados com o seu progresso, pois não sabiam que depois das aulas, em sua casa, ela praticava por um bom tempo as lições, na máquina que ganhara.

O memorialismo, sobretudo da infância e adolescência, permeia a parte mais significativa da produção poética de Cora Coralina e nele quase sempre a tônica é a hostilidade que recebeu desde que despertou para o mundo. No entanto, apesar da incompreensão da família e da sociedade patriarcal de seu tempo, Cora consegue deixar sempre uma mensagem de otimismo. A que atribui isso?

A memória trouxe ferramentas para seus textos, principalmente quando volta para Goiás, depois de 45 anos vividos no estado de São Paulo. Não há sabor amargo ou revolta. Sua compreensão e consciência das mudanças havidas e as que ainda viriam com o tempo apenas reforçaram seu otimismo. E como estava certa!

Possível dizer que longe de qualquer saudosismo, Cora revê criticamente o seu tempo?

”Procuro esperar, todos os dias, minha própria personalidade renovada, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto”. Esta sua frase é a síntese de sua vida, de sua escrita. Apenas enxergava os erros do passado e eles lhe davam novos valores. Os valores antigos já tinham sido superados.

Pode nos falar um pouco de Cora Coralina como mãe, como chefe de família, uma vez que tendo enviuvado cedo, assumiu sozinha a criação dos filhos, exercendo profissões que poderiam tê-la afastado da literatura, pois foi dona de pensão, vendedora de livros, tecidos e flores e ainda doceira?

Ser dona de loja, sitiante, vendedora de livros, dona de pensão fornecendo refeições e acomodações deu-lhe mais conhecimento e experiência e não a afastou completamente da literatura. Continuou sempre a produzir belíssimos poemas como, por exemplo, o “Poema do milho”, resultado da primeira colheita de milho que teve em seu sítio ou “E vem boiada”, quando teve terras para pouso de boiadas que vinham de Mato Grosso para frigoríficos na região noroeste de São Paulo. E como mãe, foi como a maioria das mães: exigente, um tanto mandona, corrigindo sempre e orientando. Fazia questão da leitura em casa e depois a discutia. Dava e ouvia as opiniões e nunca aceitava a omissão. Nada de ficar algum filho seu em cima do muro.

Menos conhecida que sua produção poética, pouco a pouco vem sendo publicada a prosa de Cora Coralina (Estórias da casa velha de ponte, O tesouro da casa velha da ponte e Villa Boa de Goyaz), na qual o viés da memória está sempre presente. Acredita que o alicerce para a obra de Cora Coralina seja o universo em que passou seus primeiros anos de vida, apenas reencontrado quando, sexagenária, retorna à cidade de Goiás e às suas raízes?

Sua volta à Goiás apenas reavivou lembranças do passado, daí escrever mais prosa e poemas com temas goianos.

É verdade que Cora foi convidada a participar da Semana de Arte Moderna, em 1922?

Interessante que muitos estudiosos de sua vida e obra dizem, até hoje, que ela foi convidada a participar da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Isso jamais aconteceu, pois naquele tempo ela morava em Jaboticabal e estava gerando e criando os filhos, afinal teve seis e criou mais quatro, além de uma filha de meu pai. Apesar de continuar a fazer versos, nunca ninguém tomou conhecimento do que ela escrevia, a não ser meu pai.

O que ainda há de inéditos de Cora Coralina para publicação? Algum projeto para publicar sua correspondência, uma vez que, sabidamente, era apaixonada pela epistolografia?

Há muitos inéditos que estão sob minha guarda e responsabilidade. Para quem começou a escrever aos 14 anos e foi guardando tudo, imagina o tamanho da produção! Aos poucos serão publicados, com certeza. E a correspondência também.

Que síntese faz da obra e da mulher Cora Coralina?

Foi uma mulher à frente de seu tempo. Sua visão para transformar mentes e permitir progresso em todos os setores fizeram-na otimista, certa de que tempos melhores viriam. Acreditava nos jovens. E como! Destaco, para ilustrar seu otimismo, um trecho do poema Assim vejo a vida: “Nasci em tempos rudes/ Aceitei contradições, lutas e pedras como a lição de vida e delas me sirvo/ Aprendi a viver.”

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo(USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.