De que está à procura ?

suica
Lisboa
Porto
Berna, Suiça
Colunistas

Sobre a amizade

Existe uma frase típica de quem tem poucos amigos que é a seguinte “mais vale ter poucos amigos bons e verdadeiros do que ter muitos e falsos”. Muito sinceramente não entendo o culto dos pouco amigos, nem do melhor amigo, muito menos não sei o que são falsos amigos, ou melhor, falsos amigos são tipos que não são amigos e em quem nós confiamos. Afirmarmos que existem amigos falsos é o primado da desconfiança. É à partida assumirmos que desconfiamos de todos. E se desconfiarmos de tudo e de todos, o melhor é não nos deitarmos numa toalha na praia pois pode acontecer um Tsunami, o melhor é ficar em casinha e rezar a Deus que o tecto esteja em bom estado.

Claro que o exercício da amizade é arriscado, e depois? Qual é o problema? Respirar também é arriscado, podemos inalar gases tóxicos e coisas parecidas, mas a vida é um risco, podemos morrer a cada instante, podemo-nos pôr a jeito, mas fazer amigos apenas aumenta a nossa qualidade de vida.

Eu sou um privilegiado em termos de amizades, tenho imensos amigos, gente que marcou a minha vida desde a nascença, tenho amigos que tenho contacto diário desde há quase há 50 anos, e neste aspecto, as redes sociais facilitou-me imenso a vida, não sou para recuperar contacto com pessoas que quem eu desconhecia o paradeiro, outras para manter o contacto, e finalmente, para empatizar com pessoas que eu desconhecia, e hoje em dia, apesar de não as conhecer pessoalmente, considero-as como amigas. Muito mais amigas do que pessoas que conheço há mais de quarenta anos e continuam a ser apenas conhecidos, não houve chama para outro tipo de relação.

Por outro lado, e ainda em relação a redes sociais, também algumas pessoas que eu conhecia de vista, que nunca tínhamos trocado uma palavra, que eu as considerava muito antipáticas, de repente me demonstram o quanto fui parvo, e pela sua postura, pelas suas opiniões, pela sua inteligência, em nunca ter promovido a semente da amizade.

O Facebook e outras redes sociais desmaterializaram o conceito de amizade e até agora tem sido excelente, porque aos que conheço fisicamente, a quem continuo a dar um abraço, acrescem agora outros também muito interessantes e que não menos amigos lá pelo facto de nunca termos apertado o “bacalhau”.

Porém, sinto-me beneficiado em termos de amizades, e nem sequer é por mérito, é por coincidência, e talvez por sorte! Vou-vos contar uma coisa que eu acho, e eu acho que a traição só pode ser exercida por um amigo, nunca por um inimigo, um inimigo não me trai, exerce apenas o seu ódio ou a sua defesa! Mesmo a traição por parte de um amigo pode ser justificada, e depois de esclarecida a situação, a amizade mantêm-se e até pode ser reforçada porque nem eu nem os meus amigos somos perfeitos, somos vulgares, iguais a tanta gente, e às vezes somos cabrões sem termos intenção de tal. Somos todos imperfeitos, e essencialmente temos a noção que somos imperfeitos, culpas no cartório, displicentes, mas continuamos a ter a noção da amizade, um prato quente e um quartinho no sótão reservado a um amigo em maiores dificuldades.

A um amigo exige-se um abraço, bons momentos, um ombro para consolo e essencialmente cumplicidade. Muito embora dê jeito, não precisa de partilhar o prémio do Euromilhões que ganhou comigo, não tem essa obrigação, e a obrigação não é uma palavra que caracterize uma relação de amizade, que pode ser bem substituída por prazer e vontade.

Tenho a sorte de ter amigos de infância, de escola, da natação, da faculdade, das empresas em que trabalhei, das acções associativas em participei e continuo a participar, do Facebook, do Twitter, do blogue “O piolho da solum”, da parvoeira de comentar coisas com pessoas que não conheço de lado nenhum, amigos do café, e sinceramente, a amizade não sendo quantitativa, a quantidade dá-nos o espectro de que não estamos sós, que não caminhamos sozinhos, que aprendemos imenso uns com os outros, e que certamente a atitude e a razão estará do nosso lado.

E é isto que eu acho.