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“O labirinto dos espíritos” de Carlos Ruiz Zafón

Ficha técnica

Título – O labirinto dos espíritos

Autor – Carlos Ruiz Zafón

Editora – Planeta Manuscrito

Páginas – 845

Opinião

Estou saciada. 845 páginas e 12 dias depois, estou saciada. Acedi ao âmago e coração do labirinto desta saga abrindo e fechando portas, interligando caminhos e atando muitas pontas que haviam ficado soltas ao longo das três narrativas anteriores. Obtive respostas, pude continuar na vida de personagens que nunca esquecerei, franqueei novamente o portão do Cemitério dos Livros Esquecidos, conheci Alicia Gris e soube por fim quem foi na verdade Isabel Sempere.

Se o primeiro volume se centra na história de um leitor, de “como nos seus anos de mocidade descobria o mundo dos livros e, por extensão, a vida, através de um enigmático romance escrito por um autor desconhecido que escondia um mistério daqueles de deixar a boca seca”; se o segundo tomo relata “a macabra peripécia vital de um romancista maldito” e a descida aos infernos da sua própria loucura; se o terceiro volume se dedica à personagem de Fermín Romero de Torres e ao modo picaresco como chega a ser quem é e nos descreve as suas “muitas desventuras nos anos mais turvos do século”, esta quarta parte, “virulentamente enorme e temperada com os perfumes de todas as anteriores,” leva-nos por fim ao centro do mistério e desvenda todos os enigmas pela mão de um anjo das trevas chamado Alicia Gris.

Continuamos a entrar e a sair da livraria Sempere e Hijos e a conviver com o Sr. Sempere, com Daniel, Bea, o filho de ambos – Julián –, Fermín, Bernarda e o punhado de vizinhos com quem travámos conhecimento no volume inicial desta saga. Estamos no final da década de 50 e um acontecimento desencadeia um turbilhão de consequências que fará com que as vidas aparentemente apaziguadas dos Sempere e amigos sofram uma reviravolta sem retorno. Mauricio Valls, o eminente Ministro da Educação Nacional e ex-diretor da prisão de Montjuic, desaparece sem deixar rasto. o homem que marcou de forma bárbara e tortuosa a vida de Fermín, de David Martín e sobretudo de Isabel Sempere evapora-se, some, mas deixa para trás um rasto de morte, de corrupção, de desejos de vingança, de dor. Deixa igualmente uma filha adolescente a quem Alicia, uma obscura agente de um obscuro grupo de agentes que fazem aquilo que a polícia nacional não consegue, promete encontrar o pai e trazê-lo de volta.

Este desaparecimento e esta promessa são apenas a via de acesso a labirinto de histórias e enigmas que se vão entrelaçando e oferecendo as respostas que o leitor vem sofregamente procurando desde que entrou pela primeira vez no Cemitério dos Livros Esquecidos pela mão de um Daniel Sempere muito jovenzinho. Mas são igualmente a via de acesso para conhecermos e convivermos de muito perto com outra das personagens inesquecíveis saídas do engenho de Zafón – o sombrio, maléfico e obscuro anjo das trevas que dá pelo nome de Alicia Gris. Se Fermín me havia conquistado pelas suas características únicas, Alicia atraiu-me como a luz atrai o inseto indefeso. Bastou ler as primeiras palavras sobre ela, sobre o seu lado indefeso que esconde debaixo de uma capa de crueldade, frieza, dissimulação e laivos diabólicos para que me rendesse ao seu encanto pérfido e me transformasse na sua mais acérrima defensora e protetora. Fui devorando capítulo atrás de capítulo sempre agarrada à sua sombra e quase esqueci a pequenina desilusão que ia sentindo por ver que a sua preponderância, o seu protagonismo ia abafando personagens que conhecia e mimava desde o primeiro volume da saga. Segui-a página atrás de página e assim fui saltando no tempo e no espaço, fui viajando para os anos da guerra civil, para os que imediatamente lhe seguiram e para um presente de ditadura franquista instalada de forma absoluta e que continuava a eliminar sem piedade todos aqueles que a ameaçavam. Saí de Barcelona e viajei com Alicia para a capital, uma Madrid negra, maquiavélica, onde num quarto de um hotel de luxo, com falinhas mansas, doçura temperada com veneno e promessas de uma vida finalmente livre, se transformam jovens indefesas, desamparadas e sós no mundo em bonecas assassinas. Fui, como já referi a sua mais que perfeita sombra e assim constatei o que já é óbvio para mim, mas que me continua a perseguir de forma obsessiva – o dia-a-dia de um país esmagado por uma ditadura, de milhares e milhares de cidadãos das suas duas principais cidades que têm que continuar com as suas vidas, que têm que continuar a engolir o sabor a fel e a dor de anos que lhes roubaram entes queridos, amigos e companheiros, que têm que continuar a ser as marionetas perfeitas de um punhado de poderosos que podem desmembrar famílias, matar-lhes pais, mães, roubar-lhes as crianças apenas porque sabem que a mão omnipotente de Franco será sempre a sua fiel protetora.

No início deste texto mencionei que através deste quarto e último volume soube por fim quem foi na verdade Isabel Sempere, mãe de Daniel. No final de O prisioneiro do céu, fiquei a saber o que de verdade lhe havia provocado a morte. Agora, com esta última leitura, recuei até à sua infância, adolescência e juventude, soube como conhecei o seu marido e outros pormenores que não vou revelar, mas que me saciaram muitas dúvidas e questões. Não posso dizer que tenha ficado satisfeita com todas essas respostas, mas gostei do temperamento de Isabel, da sua garra, da sua determinação e do quanto ela amou e provou amar os seus. É mais um exemplo da força das personagens femininas que povoam esta saga. Bea, Nuria, Isabel e Alicia são, à sua maneira, inesquecíveis e mostram inclusive uma preponderância nas múltiplas narrativas dos quatro volumes que relega para segundo plano algumas das personagens do mundo masculino.

Não posso rematar esta opinião sem referir que Zafón soube manter o ambiente gótico, rocambolesco e pontuado com características folhetinescas que acompanham o leitor desde A sombra do vento. A linguagem algo rebuscada, as descrições polvilhadas de hipérboles, metáforas e outros recursos, as tiradas deliciosas de Fermín continuam em O labirinto dos espíritos e são acentuadas pelo carácter misterioso e de thriller que caracterizam este volume. As portas que vão sendo paulatinamente abertas para o desvendar dos múltiplos enigmas desta saga são também uma mais-valia para conseguir manter o leitor interessado e fazer com que este esqueça o volume gigantesco da obra. Por fim, a parte que encerra a obra e que muitos leitores (de quem fui lendo as correspondentes opiniões no Goodreads e blogues) consideram supérflua faz-nos voltar ao início da saga e encerra o ciclo de uma maneira muito hábil, deixando-nos um sorriso nos lábios – pelo menos a mim deixou – e a sensação de apaziguamento que referi no início deste texto.

Li este calhamaço em apenas 12 dias. Acho que este número diz tudo. Resta-me agradecer a Zafón ter-me proporcionado leituras que se manterão comigo por muito e muito tempo. Este último volume fecha com chave de ouro uma saga que recomendo veementemente e até faz com que me esqueça da desilusão que foi (pelo menos para mim) o segundo tomo da saga, talvez porque me dá uma visão mais realista do papel que o mesmo teve em toda a série de O cemitério dos livros esquecidos.

RECOMENDADÍSSIMO!

NOTA – 10/10

Sinopse

Na Barcelona de fins dos anos de 1950, Daniel Sempere já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos. O mistério da morte da mãe, Isabella, abriu-lhe um abismo na alma, do qual a mulher Bea e o fiel amigo Fermín tentam salvá-lo.

Quando Daniel acredita que está a um passo de resolver o enigma, uma conjura muito mais profunda e obscura do que jamais poderia imaginar planta a sua rede das entranhas do Regime. É quando aparece Alicia Gris, uma alma nascida das sombras da guerra, para os conduzir ao coração das trevas e revelar a história secreta da família… embora a um preço terrível.

O Labirinto dos Espíritos é uma história eletrizante de paixões, intrigas e aventuras. Através das suas páginas chegaremos ao grande final da saga iniciada com A Sombra do Vento, que alcança aqui toda a sua intensidade, desenhando uma grande homenagem ao mundo dos livros, à arte de narrar histórias e ao vínculo mágico entre a literatura e a vida.

 

in O sabor dos meus livros