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Faleceu António Arnaut

Faleceu uma figura exemplar do humanismo, da solidariedade, um homem de bons costumes, um lutador pela liberdade e pela democracia, um escritor, um poeta, uma referência do Partido Socialista, e claro, responsável pela criação desenvolvimento do Serviço Nacional de Saúde, e todos sabemos que tal benfeitoria é reconhecida transversalmente em todos os quadrantes das sociedade.

Partiu para o Oriente Eterno, aquele que é “Pax Grão-Mestre” do muito respeitável Grande Oriente Lusitano, a Maçonaria, digamos que liberal e bastante meritória.

Do que sei de António Arnaut, apenas conheço tanto ou menos do que qualquer um de vós, tive o prazer de o ouvir falar em duas conferências acessíveis a qualquer pessoa, e notava-se que ele tinha e tem a característica que só os iluminados possuem.

Gostava de deixar um poema escrito por Fernando Pessoa, como se fosse uma singela homenagem:

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até corpo, essa descida
Ate á noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida…
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui

Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu…
De Além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda;
Aquém não há no Mundo, Corpo Seu.

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?

Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rosaecruz conhece e cala.