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Estamos já num pré-após-Francisco?

Seria longa a reflexão sobre a relação entre a Igreja Católica e a sexualidade. Da visão da mulher, entre um ideal que é Maria, Virgem, sem pecado, e uma Madalena, vista como prostituta, mas capaz do arrependimento, à questão da sacralidade associada ao sacerdócio e aos votos, passando pela questão da moral familiar e da recusa do uso de meios contraceptivos, terminando na castidade e no celibato dos padres, muito haveria para ser dito e discutido num quadro onde esta milenar estrutura se sente cada vez mais a perder crentes e a capacidade de dar respostas aos que nela ainda as procuram.

Mas o grande universo de questões para uma reflexão que vá além do furor do momento, e que nos leve para os movimentos estruturais da Igreja Católica, encontra-se, possivelmente, na problemática muito complexa da pedofilia. E encontra-se nessa questão, não nela em si, mas nos danos que ela causou nas sociedades católicas.

Num cruzamento entre a moral e a ética e a dificuldade em ultrapassar os constrangimentos de uma hierarquia, não só sólida, como fundamentada na própria ideia de sacralidade consolidada pela noção de sacramento, a Igreja Católica não tem conseguido dar respostas de um nível de razoabilidade que a opinião pública espera, tendo sempre como imagem o aparelho judicial.

De facto, tendo o interessado o olhar marcado, definido, pela justiça civil, a Igreja muito pouco tem feito para “vigiar e punir” os sacerdotes que são acusados de pedofilia, usando um título famoso do filósofo Michel Foucault. Aos olhos necessitados de ver correr uma justiça que prenda, afaste e torne públicas as culpas, tal como acontece no aparelho judicial civil, a Igreja parece fugir às responsabilidades, esconder, proteger, quando, de facto, o que acontece é de natureza diversa, onde a Igreja tem instrumentos com outras eficácias diferentes de um processo dirigido pelo Ministério Público.

E esta diferença de natureza processual, que resulta da dimensão de sacralidade dos indivíduos e das funções eclesiásticas atribuídas, está a criar, arrisco essa leitura, uma percepção cada vez mais intolerante por parte dos católicos que, cada vez mais, trazem para o olhar religioso o filtro da cidadania. Neste momento, nesta situação, o crente católico, mais que sentir o vexame da pedofilia em si, sente as não respostas da estrutura.

A visita do papa Francisco ao Chile é, neste assunto, marcante. A um clima de significativa animosidade que vem desde a ditadura de Pinochet, junta-se a aparente indiferença da estrutura da Igreja Católica aos casos de pedofilia. Padres e bispos acusados de pedofilia, ou de protegerem quem é acusado, continuam em funções.

Foram as narrativas que se alteraram. Nesta visita ao Chile, as populações agiram e não ficaram caladas, passivas. Se até aqui o pedido de perdão por parte de um Papa foi significativo, nas ruas do Chile vimos tarjas a dizerem que não, que isso não bastava, que era preciso justiça. Isto é, à linguagem religiosa do perdão, a sociedade cristã, cada vez mais “civil”, exige justiça. Já não basta o gesto simbólico do pedido de desculpas.

Sem ser necessário usar como argumento demonstrativo o facto de terem sido queimadas dez igrejas no Chile, estamos perante uma mudança muito significativa no grau de rancor, de desconfiança e de acusação para com as práticas percepcionadas como responsabilidade da Igreja Católica.

Eventualmente, o líder desta milenar e imensa estrutura terá de rever o paradigma de actuação e de resposta. Mais que para se manter no mundo, para ser respeitada nele, a Igreja Católica terá de dar resposta a este grau de exigência que já não é simplesmente do quadro mental do fenómeno religioso. É o preço e são as implicações de uma secularização que olha para o mundo através do policiamento e dos processos judiciais.

Podemos estar a muito pouco tempo de uma mudança muito significativa que um novo Sumo Pontífice terá de dar caminho. Será a Igreja Católica capaz de o fazer em sociedades, como as americanas, onde os movimentos evangélicos são tão fortes?