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Crónicas nada-fantásticas sobre o Mundial (2)

Extraordinária leitora e sensacional leitor, o Mundial de futebol lá continua por terras do Czar Putin, com muito talento e muita magia. Que o diga a torcida nigeriana que foi proibida pelas autoridades russas de levar ‘galinhas mágicas’ para dentro do estádio. Então onde é que está o ‘fair play’ tão propalado aos sete ventos pela FIFA e o respeito pelo multiculturalismo? Qualquer dia ainda impedem Cristiano Ronaldo de entrar nos estádios, também com o pretexto de que ele é mágico e que, qual amuleto de madeira, dá sorte a Portugal. Mágico também é voar com o avião a arder e chegar ao destino com saúde e ainda com mais fé em Maomé. Foi isso mesmo que aconteceu ao avião que transportava a seleção da Arábia Saudita para Rostov. Aposto que os sauditas devem ter ouvido dizer que os mexicanos andaram em cenas escaldantes com ‘aviões’ e não quiseram ficar atrás…

Suécia x Coreia do Sul: Desde 2007, o astro Zlatan Ibrahimovic foi eleito 10 vezes consecutivas o melhor jogador sueco do ano, até que foi destronado por Andreas Granqvist, defesa-central e capitão da seleção sueca. Granqvist jogou 5 anos no clube russo Krasnodar, tendo assinado recentemente pelo Helsingborgs, clube que se encontra na segunda divisão sueca. Foi também ele o melhor em campo frente à Coreia do Sul, coroando a sua exibição com um golo solitário. Kim Jong-un comentou este resultado: “Se a selecção fosse mista, com atletas da Coreia do Norte, de certeza que tínhamos dado uma abada aos suecos! Nem pentear se sabem!”

Bélgica x Panamá: A maior baixa dos belgas foi Radja Nainggolan, por opções técnicas. A maior baixa dos ‘canaleros’ foi Amílcar Henriquez, morto em Abril do ano passado, baleado. Era um dos capitães de equipa da seleção da CONCACAF, tinha 33 anos e quase 100 jogos pelo seu país. Até hoje, não foram descobertos os responsáveis pela sua morte. Panamá é a equipa com menos valor de mercado, tendo jogadores a atuar na equipa B de alguns clubes europeus de segunda linha, como é o caso de Ismael Díaz, que actua no Deportivo (da Corunha) B, e de José Luis Rodríguez, jogador da equipa secundária do Gent, da Bélgica. Sendo esta uma seleção de extremos, o defesa-central Román Torres é o jogador com mais massa do mundial, beirando os 100 kg. Sabe-se de fonte (nada) segura que a seleção do Panamá já iniciou contactos para contratar o apresentador do Preço Certo, Fernando Mendes, para pronta de lança. E no jogo em que os virgens panamenses perderam os três no que à participação em Campeonatos Mundiais diz respeito (foi a sua estreia absoluta em copas mundiais), coincidência das coincidências, perderam por três…

Tunísia x Inglaterra: 20 anos e 3 dias passados, as duas seleções voltaram a encontrar-se num mundial. Gareth Southgate esteve presente em ambos os jogos: como jogador em França ’98 e como treinador em Rússia ’18. Curiosamente, o treinador da seleção tunisina em 1998, o polaco Henryk Kasperczak, esteve perto de se reencontrar com Southgate neste jogo, já que teve uma segunda passagem pelas ‘Águias de Cartago’, de 2015 a 2017. Nove dos convocados por Nabil Maâloulnasceram em França mas um chamamento interior levou-os a optar por esta seleção do Magreb. Ok, deixemo-nos de poesias! Foram para a Tunísia porque, caso contrário, a esta hora estavam a ver o Mundial na televisão. Acho que Mário Nogueira, líder da FENPROF, também se deveria naturalizar Tunisino e ir viver para o Magreb, uma vez que ele está sempre em greb.

Colômbia x Japão: Juan Fernando Quintero, jogador pertencente ao FC Porto, fez história ao tornar-se no primeiro colombiano a marcar em 2 mundiais diferentes. O jogo em si também foi histórico. Pela primeira vez na história, uma seleção asiática derrotou uma seleção sul-americana num mundial. As seleções sul-americanas estão a jogar abaixo do esperado, com 2 derrotas, 2 empates e apenas uma vitória: a uruguaia. Note-se que neste jogo ocorreu a segunda expulsão mais rápida da história do torneio num lance que envolveu Kagawa e Carlos Sánchez, logo aos 3 minutos. Deste lance mal-cheiroso, o árbitro assinalou penalty, que Kagawa transformou num golo de caca.

Polónia x Senegal: Thiago Cionek, defesa-central do clube italiano SPAL, nascido em Curitiba, marcou um auto-golo, do qual beneficiou a seleção senegalesa. A última vez que uma seleção africana foi beneficiada por um auto-golo num mundial foi há 20 anos, no mundial de França, quando o guardião espanhol Zubizarreta marcou pela Nigéria. Nessa ocasião, o guardião na outra extremidade do campo era Peter Rufai, guarda-redes que passou 3 anos no Feirense e 1 no Gil Vicente. Estatisticamente, os auto-golos beneficiam muito mais as seleções europeias do que as não-europeias. Serão resquícios neocolonialistas?

Rússia x Egipto: A última vez que a Rússia venceu os seus primeiros dois jogos num mundial foi em 1966, com Lev Yashin já em final de carreira, contra a Coreia do Norte e Itália, duas seleções que curiosamente estiveram aquém na qualificação para este torneio. Itália, como é conhecido, perdeu um play-off de apuramento contra a Suécia, e a Coreia do Norte não se conseguiu superiorizar aos seus rivais asiáticos e garantir uma vaga na terceira ronda de qualificação asiática. Aqui mais uma vez um auto-golo a beneficiar uma seleção europeia e a dar o mote para mais um par de tentos, totalizando três em apenas 17 minutos. Nem a proteção de Tutancámon livrou a seleção egípcia da derrota, tenda esta tombado prematuramente da competição mundial, à semelhança do que aconteceu com o jovem faraó em relação à sua atribulada vida.

Portugal x Marrocos: Cristiano Ronaldo tornou-se, de maneira isolada, no maior marcador de selecções da UEFA. É também o primeiro jogador a marcar 5 golos em Mundiais de maneira consecutiva, desde Oleg Salenko, que marcou 5 golos num mesmo jogo, contra os Camarões, em 1994, recorde que pertence ao russo até hoje. Foi o jogo dos RR´s: de Rui (Patrício) e de Ronaldo, com todos os outros a formarem barreiras fixas em campo entre as posições dos dois RR’s. Ambas as equipas suaram que nem camelos, dada a hora a que a partida foi disputada, com o Sol em riste! O primeiro-ministro admite que Portugal-Marrocos foi um jogo de nervos. Curioso! E eu que pensava que Costa e a sua equipa ministerial já estavam habituados a ser ‘salvos’ por Centeno, o Ronaldo das Finanças. Uma coisa é certa: quanto pior é a exibição, quer da selecção portuguesa, quer do elenco governativo, maiores se tornam os nossos Ronaldos…

Uruguai x Arábia Saudita: Fernando Muslera igualou-se ao, também guarda-redes, já falecido, Ladislao Mazurkiewicz, como o jogador com mais partidas em fases finais de mundiais pelo Uruguai (13). Ambos têm ligações a outros países: Ladislao, como o próprio nome indica, tem ascendência polaca, e Muslera nasceu em Buenos Aires. Além disto, Luis Suárez tornou-se no primeiro uruguaio a marcar em 3 mundiais diferentes. E muita sorte tiveram os sauditas em não levarem uma dentada no rabo quando beijaram o chão, hábito muçulmano: é que Luís Suárez não costuma perdoar…

Irão x Espanha: Carlos Queiroz optou por deixar 3 jogadores, que juntos marcaram 42 golos esta época, no banco: Saman Ghoddos (10 golos), nascido na Suécia e tendo destaque na equipa do mesmo país nos últimos anos (Östersunds), já tendo inclusivamente disputado jogos pela selecção sueca(2 amigáveis em 2017); Reza Ghoochannejhad (10 golos), avançado do clube holandês Heerenveen, mudou-se aos 4 anos para a Holanda e disputou jogos pelas selecções holandesas de base, da sub-16 até à sub-19; Por último, Alireza Jahanbakhsh (24 golos), um dos melhores jogadores do último campeonato holandês, foi essencial para o AZ Alkmaar, porém, nunca tendo replicado exibições da mesma qualidade pelo Irão, tendo apenas 4 golos em 40 internacionalizações. Queiroz optou por colocar toda a caravana de camelos à frente da baliza o que, pelos vistos, não foi suficiente uma vez que Diego Costa, sem saber como, lá conseguiu encontrar um caminho para o fundo da baliza do Irão. E aqui fica a grande questão da qual poderá depender a permanência da selecção nacional na Rússia: Irão os jogadores portugueses conseguir vencer a “3ª pessoa do plural do futuro indicativo do verbo IR”?

À guisa de conclusão, quero deixar bem claro que a introdução do vídeo-árbitro veio tirar toda a emoção e espavento próprios do futebol. Afinal o futebol é jogado por humanos e apitado também por humanos e, como tal, é normal que se cometam erros quer a jogar quer a arbitrar. Por exemplo, no jogo da Espanha com o Irão, já estavam todos, jogadores e adeptos, em autêntica euforia a comemorar o golo da Pérsia, quando o vídeo-árbitro veio colocar um balde de água fria sobre estes pobres (muçul)humanos. Mas quem é que está a jogar em campo? Por acaso são os vídeos e as televisões que estão a jogar ou são os humanos? Se existisse vídeo-árbitro no Mundial de 1986 nunca teria existido a célebre “Mão de Deus” de Maradona. Logo, o vídeo-árbitro é uma tecnologia de satanás ao serviço das trevas. Viva a paixão do futebol instantânea e imediata! Futebol é amor e o amor é como um jogo de futebol: há encanto, há sofrimento, há paixão, há entrega, há ansiedade, há magia, há êxtase e há goooooloooooossssss!

(Esta crónica foi escrita em parceria com o meu filho Diogo Luís, estudante na Universidade do Porto)