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Cantinho da Carolina: o meu bairro

Sendo este o primeiro artigo deste ‘Cantinho da Carolina’, não podia deixar de falar do meu bairro, do meu primeiro, e verdadeiro, ‘cantinho’.

Até porque é tempo de Santos Populares, sardinhas e, isso mesmo, bairrismos!

Voltei ao meu bairro, ao bairro onde cresci, que já não visitava há tantos anos.

Foi uma visita por acaso, talvez por isso o impacto tenha sido maior, mais profundo… Dei por mim a voltar à infância, aos tempos de menina, em que corria por aquelas ruas, brincava no jardim, às escondidas e à apanhada, jogava à bola, e até fazia as primeiras compras à minha mãe.

Sandálias que escorregavam nas pedras gastas, joelhos gastos também de tantas quedas, saias de pregas e calos nas mãos de tanto andar de baloiço.

Com um saquinho de serapilheira numa mão, e umas moedas na outra, lá ia eu ao supermercado do senhor Lino comprar umas peças de fruta, uma garrafa de leite Vigor, ou a farinha Pensal para o meu pai.

Ou então à capelista da rua ao lado, comprar um caderninho de duas linhas e uns metros de fita de cetim, para o vestido que a mãe fazia para mim…

Mas tudo isto desapareceu…

A mercearia não sobreviveu a tantos hipermercados que hoje rodeiam a Estrada da Luz e a capelista… – Acho até que já ninguém usa esta designação – é agora uma ‘Taberna’.

Lembro-me do senhor Costa, um senhor já de meia-idade, dono dessa capelista (ok, eu traduzo: chamava-se ‘capelista’ a uma pequena loja que vendia um pouco de tudo: jornais, revistas, tabaco, brinquedos, roupa, fitas, botões… enfim, como se fosse a ‘loja do chinês’ de hoje em dia, mas em formato reduzido e em bom).

O senhor Costa tinha uma sobrinha da minha idade, e deixava-nos brincar lá dentro, ‘às lojas’.

O café, ao lado da minha casa (onde comi tantos gelados!) é agora uma sofisticada loja de decoração, e o talho em frente… Continua a ser talho, mas mais ‘fino’ 🙂

Ah, mas uma loja ficou, a da ‘senhora dos plásticos’, a minha antiga aliada quando eu queria muuuito uma boneca! Ia à loja da Dona Emília, escolhia a boneca e ela depois ‘namorava’ a minha mãe para me a comprar.

Era até melhor que o Pai Natal, nunca falhava!

Lembro-me da minha primeira ‘melhor amiga’, BFF como diz hoje a minha filha, ou seja, ‘best friend forever’. A minha BFF chamava-se Sandra, e com ela dividi as primeiras brincadeiras naquele bairro.

Seguimos escolas diferentes, e com elas a nossa vida… Não foi então ‘forever’, mas para sempre ficaram, sim, as memórias das nossas travessuras, naquele jardim.

Sim, éramos umas pestinhas! 🙂

Foi também neste bairro que o meu pai me ensinou a andar de bicicleta e que tantas vezes fui ao chão, ou aos lençóis pendurados na varanda da vizinha!

Agora, aquela relva frente à minha janela é um espaço de fitness e o jardim parece despido sem os baloiços de ferro, sem as correrias das crianças, sem a alegria de brincar naquela rua…

Já ali não tenho os meus pais, as minhas amigas já ali não moram, e quase todas as árvores desapareceram…

E assim levaram o ‘meu bairro’… Apenas uma grande raiz ficou…