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Araceli Chacon: gênio pianístico precoce

Aos nove anos, a pianista Araceli Chacon apresentou-se, pela primeira vez, como solista de orquestra. Começou seus estudos de piano em sua cidade natal, São José do Rio Preto, no Conservatório Musical Carlos Gomes, seguindo-os, mais tarde, com a pianista Lydia Alimonda. Bolsista da prestigiada Julliard School of Music, em Nova York,  lá obteve a graduação e o mestrado em música.  Recebeu, dentre outros, o Prêmio Revelação APCA; de Melhor Intérprete de Cláudio Santoro, no II Concurso Sul América e de Melhor Intérprete de Maurice Ravel, no II Concurso Antonieta Rudge. Tem realizado concertos por todo Brasil, Estados Unidos, Canadá, Alemanha e África do Sul, assim como gravado discos ao vivo, como o mais recente, no Lincoln Center Plaza, em Nova York.

Quando a descoberta da música?

Atribuo a descoberta e o amor que tenho pela música ao meu convívio familiar. Nasci num ambiente em que a música era cultivada e adorada diariamente, em suas variadas formas. Meu pai, espanhol de origem, chegou a São Paulo, aos oito anos de idade, e construiu uma família enorme, em dois casamentos e dez filhos. Sendo eu a caçula desse eclético clã, desde muito jovem tive a oportunidade de conviver com estilos populares, folclóricos e eruditos de épocas e regiões diversas, já que a liberdade de expressão musical parece ter sido a tônica da família.

Como foram os primeiros anos de formação, ainda em São José do Rio Preto?

Como disse anteriormente, meus pais e irmãos, cada um a seu modo, adoravam música. A rotina da família era cantar, assobiar, tocar e bater ritmos em qualquer objeto que estivesse ao alcance. Precisávamos ouvir música o tempo todo e a música era o que nos unia, o que nos fazia felizes ou tristes. Aquilo que alimentava nossas almas. Enfim, nossa linguagem e forma de comunicação eram quase que exclusivamente musicais. Com o passar do tempo, aprendi a reconhecer que toda essa experiência informal de música, junto à minha família na infância, sutilmente modelou meu espírito musical. Concomitantemente a essa formação casual, fui exposta ao ensino formal, aprendendo, com meus irmãos Lourenço e Celso, os rudimentos da teoria e da percepção auditiva musical. A partir dos seis anos, ingressei no extinto Conservatório Musical Carlos Gomes, em São José do Rio Preto. E antes de completar um ano de estudos no conservatório tive as minhas primeiras experiências no palco: um pequeno recital e a participação num concurso estadual de piano, com as provas finais realizadas na cidade de Campinas. Foi nesse concurso que conheci a professora Lydia Alimonda, que atuava como membro-presidente da banca de jurados e que expressou publicamente a intenção de orientar e guiar o meu futuro profissional. Completei os estudos no Conservatório Carlos Gomes e passei a ter aulas particulares em São Paulo, com a professora Lydia Alimonda, a partir dos nove anos de idade.

E a permanência de mais de uma década nos Estados Unidos, onde obteve o título de doutora em música pela Julliard School of Music, de Nova York?

Na verdade, não cheguei a concluir o doutorado. Apesar de ter completado os créditos de todas as disciplinas, não fui aprovada no exame oral, último requisito da instituição para a obtenção do título de doutora. Portanto, oficialmente, possuo apenas o título de Master of Musical Arts, da Julliard Scholl. Infelizmente, quando recebi da notícia da reprovação, as capas de meus cds, que erroneamente trazem essa informação, já estavam impressas e os cds plastificados. Portanto, não havia nem mesmo a possibilidade de inserir uma pequena errata nos encartes. Esclarecido o equívoco, volto a responder a sua pergunta, dizendo, inicialmente, que minha ida aos Estados Unidos foi como uma “força do destino”, porque tínhamos, tanto eu quanto a professora Lydia, a Europa em mente. Na época, fixei como meta prioritária de minha estadia nos Estados Unidos sanar todas as lacunas musicais, culturais e artísticas que sentia haver em minha formação. Nesse sentido, as providências tomadas foram: música de câmara em abundância; conscientização de conhecimentos teóricos musicais e técnicos instrumentais pianísticos, como embasamento para minhas interpretações e necessidades expressivo-perfomáticas; ouvir concertos e conhecer novas obras, de todo e qualquer tipo de formação sonoro-instrumental; assistir, mensalmente, pelo menos a uma ópera e/ou balé; frequentar museus; pesquisar o maior número possível de manuscritos musicais dispon´veis no complexo do Lincoln Center Plaza e ler, incessantemente, o maior número de partituras que o tempo me permitia.

Em mais de quatro décadas de carreira, que momentos foram mais marcantes? Que mestres imprescindíveis?

A primeira apresentação como solista, com a Orquestra Jovem da Escola de Piracicaba, aos nove anos; a preparação para um recital solo, com uma série de Ponteios de Camargo Guarnieri; os solitários dias que antecederam minha prova de admissão na Julliard School. Co relação aos mestres, considero todas as experiências pessoais, profissionais e humanas que tive – e ainda tenho – como imprescindíveis para meu aprendizado, para meu crescimento artístico e espiritual.  Cada momento vivido, com seus fatos e personagens, guiou-me para novas visões, para etapas e experiências diferentes. Sendo assim, acabo me questionando se o que antecedeu algo foi de importância, maior, menor ou igual ao que veio depois. Ao priorizar qualquer um deles, precisarei, necessariamente, mencionar alguém, ou algo, que me trouxe até ali. E a descrição se tornaria extensíssima!

Vê muita diferença entre o espaço que tem um músico erudito brasileiro e o norte-americano ou europeu?

Sim e acredito que os espaços e as infraestruturas existentes para a música erudita em cada país ou até mesmo em que cada região do país, sejam díspares, pois a história, a experiência sócio-política, econômica e cultural de cada um deles e, obviamente, suas necessidades mercadológicas e culturais, são e sempre serão, únicas. Por exemplo, temos hoje, no Brasil e na Venezuela uma nova política sócio-educativa que apóia cultural e financeiramente projetos que levem a música de concerto às populações mais carentes. Isso advém de uma necessidade político-cultural momentânea, localizada e muitas vezes passageiras. Portanto, a forma de inserção ou de atuação de um músico erudito pode variar de país para país, apesar da aparente globalização em que vivemos.

O que falta para popularizar a música erudita no Brasil?

Primeiramente, precisamos ter consciência de que existem níveis de apreciação e de percepção artístico-sonora e que isso denota a abrangência e a dimensão que o termo popularização pode atingir. Digo isso porque, considerando que a arte tem por natureza e o dom de evocar ou provocar nossos sentimentos, é totalmente compreensível que num primeiro impacto gostemos daquilo que, consciente ou inconscientemente conhecemos, daquilo que nos é familiar. Consequentemente, precisamos conhecer, estudar e nos familiarizar como o desconhecido e assim criar novos sentimentos, elos de reverberação e apreço. Todavia, essa necessidade contínua de conhecimento está intimamente relacionada ao grau e à intensidade de aprofundamento e de expansão interior que desejamos, individual e coletivamente, buscar.

A experiência como docente valeu a pena? O que a fez abandoná-la?

No meu caso, a experiência como docente nasceu e cresceu essencialmente de uma ideologia filosófica que me acompanhava desde criança, quando observava meu irmão lecionando piano em casa. Ao presenciar a dificuldade dos alunos em aprender a ler uma partitura , me deparava constantemente com o sentimento de poder demonstrar que aquilo não era tão difícil quanto parecia. Quando a vida, naturalmente, me trouxe a oportunidade, abracei a causa. Penso que, durante o período em que atuei como docente da Universidade Federal de Uberlândia, aprendi muito mais sobre relacionamentos humanos do que aquilo que pude ensinar sobre música. Por ser uma de minhas necessidades intrínsecas, não abandonei a atividade em si. Apenas me retirei do ambiente acadêmico e voltei a minha cidade, à minhas origens, a meu estado.

Qual o significado de ter atuado como solista de importantes orquestras, com a Sinfônica de São Paulo e a Charleston Symphony, assim como os concertos em importantes salas do mundo, como o Lincoln Center, em Nova York?

A perspectiva vivenciada pelo músico intérprete erudito é bastante menos hollywoodiana do que aparenta. Sempre que me sento ao piano para tocar música erudita, seja para estudar, seja numa apresentação, meu foco é automaticamente direcionado ao som que me circunda. Por isso, devo afirmar que poder atuar em ambientes com as melhores condições acústico-sonoras possíveis e estar rodeada por excelentes músicos e instrumentos e de alta qualidade, faz com que a experiência se converta em paraíso celeste.

Que compositores ainda gostaria de gravar? Os compositores eruditos brasileiros têm merecido espaço fora do país?

Em geral, acabo priorizando muito mais a música do que o compositor. Preciso me sentir apaixonada pela música, para surgir o desejo de estudá-la e tocá-la. A gravação fica em segunda plano. No momento, eu poderia gravar muitas peças solo, camerísticas ou orquestrais, caso as condições e circunstâncias adequadas me fossem oferecidas. Quanto à questão dos compositores eruditos terem espaço no exterior, creio que depende, em grande parte, da predisposição de intérpretes, orquestras e corais de incorporá-los em seus repertórios, até porque o Brasil não investe numa política de exportação de seus bens culturais.

A música popular lhe desperta interesse? Algum nome que gostaria de destacar?

Gosto principalmente da música folclórica e da música popular brasileira composta até os anos 90. Curto muito a variedade de estilos composicionais e interpretativos que encontramos nos processos criativos/intuitivos brasileiros.

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.